Um número crescente de pessoas vem repensando sua relação com o álcool e optando por reduzir o consumo. Basta pesquisar sobre o tema nas redes sociais pra encontrar diversos conteúdos — de relatos em vídeo até postagens que destacam os benefícios de passar um tempo longe do goró. Segundo o Relatório Covitel 2023, do período pré-pandemia até ano passado, o número de consumidores frequentes de bebida alcoólica (ou seja, que bebem três ou mais vezes por semana) caiu gradativamente entre os brasileiros de 18 a 44 anos.

Se você faz parte desse grupo, é possível que já tenha sentido uma pressão por justificar o motivo pelo qual não está bebendo — além de ouvir frases como “Ah, só uma!”; “Está tomando algum remédio?”; ou “Está grávida?”. Aqui, a gente fala mais sobre o assunto.

Novos dados

De acordo com a pesquisa Copo Meio Cheio, realizada pela consultoria de pesquisa e estratégia Go Magenta, 62% dos consumidores de bebidas alcoólicas já pensou em reduzir o consumo. Destes, 79% conseguiu. Os motivos que levaram a essa decisão variam, principalmente, de acordo com a faixa etária.

Os Millennials — galera que, segundo o estudo, tem entre 25 a 44 anos — demonstram mais preocupação com o aspecto físico. Entre aqueles que reduziram o consumo de álcool, 53% tem como objetivo melhorias na saúde, enquanto 26% busca reduzir o peso corporal. A pandemia intensificou essa preocupação em reduzir a bebida, que vem associada a um aumento na prática de exercícios físicos e preferência por alimentos saudáveis e funcionais.

Já a Geração Z — composta por pessoas entre 18 a 24 anos —, parece estar mais preocupada com a sua imagem e reputação. 30% dos consumidores dessa faixa etária que reduziu o consumo tomou essa decisão com o intuito de ter mais autocontrole. De acordo com a pesquisa, a percepção do álcool como um rito de passagem à vida adulta está diminuindo, assim como a ideia de que o jovem descolado deve ser rebelde e transgressor. Aparentemente, o responsável é o novo cool.

Justifique sua resposta

Com o crescente número de pessoas que optam por reduzir o consumo de bebidas alcoólicas, entra em pauta o sober shaming. O termo em inglês se refere à prática de discriminar, importunar ou segregar as pessoas abstêmias (ou quase), mesmo que em tom de brincadeira. Essa questão é mais relevante do que parece: 34% das pessoas que moderam considera o fato de ter que se explicar como a maior barreira. Essa é a segunda causa mais citada, atrás apenas da busca por uma vida social mais ativa. Além disso, 68% afirma ser frequentemente questionada sobre suas razões, e 49% se sente desconfortável ao explicar.

Mas, se a maioria dos consumidores já cogitou reduzir o consumo, por que é tão comum questionar e incomodar as pessoas quando elas finalmente conseguem? Um dos motivos é que a moderação de alguém provoca uma reflexão em quem está ao redor. E isso incomoda.

Esqueci como socializa

Você já se perguntou por que — e pra quem — bebe? 53% das pessoas entrevistadas pela Go Magenta afirma consumir bebidas alcoólicas porque determinados momentos ou ocasiões pedem. Outros 51% faz isso com o objetivo de acompanhar amigos e familiares. Em terceiro lugar, com 42%, aparece a sensação de merecer um drink após um dia difícil.

O álcool está realmente presente em muitos dos nossos momentos de socialização. Embora funcione como um sedativo no sistema nervoso central, também provoca efeitos estimulantes, como coragem e extroversão. Após anos de isolamento, muitas pessoas se viram precisando de doses extras pra iniciar uma conversa. No entanto, a redução do consumo pode ser uma forma de treinar novamente essa capacidade, além de ajudar a entender o que anda incomodando.

Carta atualizada

Segundo a IWSR, em 2023, o mercado de bebidas de baixo teor alcoólico ou sem álcool atingiu um valor superior a US$ 13 bilhões, com uma expectativa de crescimento de cerca de um terço até 2026. Vale lembrar que os Jogos Olímpicos de Paris 2024 tiveram como patrocinador mundial uma cerveja 0.0%.

Cada vez mais sofisticados e instigantes, os mocktails — ou coquetéis sem álcool — também são uma forma de garantir a presença das pessoas que estão reduzindo o consumo de bebida alcoólica no bar. Com sabores complexos e inovadores, essas misturas incorporam infusões, espumas, chás, xaropes e vários outros ingredientes. Em São Paulo, bons lugares pra experimentar um mocktail são o Riviera Bar e o Bar dos Arcos. No Rio, vale provar os do Kitchen Asian Food, na Marina da Glória, e os da Babbo Osteria, em Ipanema.

Avaliando

Os principais benefícios apontados por quem reduziu o consumo de bebida alcoólica, segundo a pesquisa Copo Meio Cheio, são uma melhora na saúde física (83%), seguido por mais disposição (78%) e boas noites de sono (72%). Não é surpreendente, portanto, que 67% das pessoas que tomaram essa decisão desejem parar completamente no futuro. Além disso, um estudo de 2018 publicado no BMJ Open indicou aqueles que permaneceram 30 dias abstêmios apresentaram redução nos níveis de colesterol, pressão arterial e proteínas associadas ao câncer.

Se, após refletir, você considerar que sua relação com o álcool não anda saudável — seja pela frequência, seja pelo papel que a substância ocupa na sua vida — vale estabelecer algumas regras, como definir dias específicos pra beber e uma quantidade máxima de consumo. Ficar um período sem o álcool também é um exercício interessante. Esta matéria do The New York Times explica exatamente o que acontece com o seu corpo quando você passa um mês longe dos drinks.

Saiba mais:

· A newsletter Tá todo mundo tentando: parar de beber, de Gaía Passarelli.
· O vídeo Quando o consumo de álcool se torna excessivo?, do Drauzio Varella.
· O episódio Parar o álcool, será?, do Desenrola, nosso podcast.
· O livro A saideira: Uma dose de esperança depois de anos lutando contra a dependência (2018), de Barbara Gancia.

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