


Você consegue se lembrar da última vez que um suspiro, seguido de um “uaaaau”, escapou dos seus lábios? Que teve contato com aquela emoção de se deparar com algo belo, surpreendente, inexplicável? Maravilhar-se diante do mundo — com seus pequenos e grandes mistérios — é um aspecto fundamental da nossa humanidade. Essa capacidade de encantamento é o que alimenta o tesão pela vida e, de certa forma, dá um pouco de sentido ao que nos rodeia. O problema é que, pra muita gente, momentos genuínos de deslumbramento parecem estar cada vez mais raros. Aqui, a gente reflete sobre o assunto e dá algumas dicas de como trazer essa sensação mais pra perto.
Mudança de hábitos
Vivemos tempos complexos, pra dizer o mínimo. Guerras e conflitos acontecendo em vários países, crises econômicas se intensificando, desastres ambientais deixando claro que estamos nos aproximando de uma situação limite etc. No âmbito pessoal, enfrentamos altos índices de transtornos mentais, impulsionados por fatores como a sobrecarga de informações, o ritmo acelerado da vida contemporânea e a solidão. Nesse cenário, maravilhar-se com o mundo pode parecer não apenas difícil, mas também um sentimento um tanto egoísta.
No livro Wonderstruck: How Wonder and Awe Shape the Way we Think, lançado este ano, a filósofa belga Helen de Cruz argumenta que, nos dias de hoje, antes de qualquer coisa que pretendemos fazer, nos perguntamos: “Será que isso é útil? Como vai me ajudar?”. Ou seja, em tempos de celebração da produtividade, tudo precisa ter uma utilidade ou um propósito bem definidos. Até mesmo os hobbies — atividades que deveriam ser realizadas por prazer — precisam estar ligados a um crescimento pessoal, ou então serem monetizados em algum momento. Isso, pra autora, é o que acaba com o deslumbramento.
Questão de necessidade
Professora de filosofia da Universidade de Saint Louis, nos Estados Unidos, Helen teve como principal inspiração pra elaborar sua teoria o filósofo, físico e matemático francês René Descartes. Autor da famosa frase “penso, logo existo”, ele acreditava na existência de seis emoções: admiração, amor, ódio, tristeza, alegria e desejo. Ao longo da obra, a filósofa explora como a primeira enriquece nossas vidas, tanto individual como coletivamente.

Em uma matéria pra BBC News Mundo, Helen descreve o assombro como aquilo que sentimos “quando percebemos ou conceitualizamos a imensidão”, seja ela física ou conceitual. Já o deslumbramento é a emoção despertada quando “vislumbramos o desconhecido”, ou seja, o que está além dos limites da nossa compreensão.
Ao longo do livro, ela afirma que o contato com aquilo que nos maravilha e que ao mesmo tempo foge ao nosso entendimento serve de estímulo pra manter a mente aberta, criar e desenvolver novas ideias. Em outras palavras, é graças ao deslumbramento que sentimos pelo mundo que tratamos de compreendê-lo. Essa “magia”, portanto, também é combustível para as ciências e o conhecimento.
Como se maravilhar
Está sentindo falta de se maravilhar com a vida? Saiba que abrir-se pra novas pessoas e experiências é uma das melhores maneiras de vivenciar momentos de deslumbramento. O contato com o desconhecido traz um brilho especial ao olhar e intensifica a paixão pela vida.

Vários momentos que poderiam nos proporcionar a sensação de deslumbramento também acabam passando despercebidos na correria do dia a dia. Muitas vezes, estamos tão imersos em nossos pensamentos e angústias sobre o futuro que esquecemos de viver atentamente o presente. Em outras ocasiões, nossos olhos estão focados nas telas, e nos infinitos estímulos que elas nos oferecem. Por isso, é importante criar o hábito de parar e observar o que está ao nosso redor — seja em casa, seja no transporte público ou nos encontros com familiares e amigos. Como afirma Helen, “o assombro exige atenção”.
Agora, se você sente culpa por se maravilhar em tempos de crise, saiba que essa também é uma forma de construir resiliência diante das dificuldades da vida. Não se trata de ignorar os problemas, mas de reconhecer que momentos de beleza e admiração podem proporcionar alívio e até renovar a esperança necessária pra continuar lutando.
Na prática
Uma das melhores formas de se maravilhar é através da natureza. Olhar pro céu, contemplar o mar ou uma cachoeira e observar fenômenos naturais — ao vivo, não pela tela do celular! — nos permite sentir deslumbramento perante a grandeza do mundo e lembrar da nossa própria insignificância diante dele — o que, ao contrário do que pode parecer, é ótimo. Além disso, reforça a importância de preservar o meio ambiente.
Consumir ficção, ler livros que estimulam a reflexão e apreciar arte são outras maneiras de despertar essas emoções. Pra enriquecer ainda mais a reflexão, a gente também perguntou aos nossos seguidores no Instagram quais momentos os fizeram sentir deslumbramento recentemente. Aqui, compartilhamos algumas respostas:
“O azul voltando pro céu depois de dias cinzas.”
Marina Andrade
“Minha bebê segurando meu dedo na soneca, dei-me conta de que essa é a sua forma de me abraçar.”
Luana Mallmann
“Ouvir a sinfonia do Concerto Grosso nº1 tocada pela orquestra na qual trabalho.”
Marina Carrera
“Ser lida. Ser vista. Não lembrava da sensação das borboletas no estômago…”
Priscila Marola
“Uma brisa na janela da cozinha / Uma gota de chuva.”
Carol Chamareli
“Um meteoro! Estava em Portugal, ele passou muito próximo, vi inteiro. Emocionante.”
Rochelle Aguiar
“Tomar banho! Sentir a água tocar no corpo é incrível, ainda mais com a luz apagada.”
Giovany Belo
“Meus dogs brincando juntos.”
Jarlet
“Moro na roça, foi hoje de manhã com o nascimento de dez pintinhos pretos.”
Camilli Louize
“Uma viagem ao Pará. Rios caudalosos e florestas flutuantes!”
Maria Rosiane
“Uma atitude de completa gentileza.”
Keila Bastos
“Hoje cedo, enquanto corria, percebi que a vida é movimento.”
Bernardo Kayua
“Um barco parado no meio do mar, paz e calmaria.”
Elaine Balbino
“Caminhar com uma amiga e conversar sobre memórias afetivas e afinidades.”
Ana Badari
Saiba mais:
· A série Amazônia, Arqueologia da Floresta: A terra dos povos, pra se deslumbrar com a grandiosidade e as surpresas da floresta.
· Os livros Uma boa vida: Como viver com mais significado e realização (2023), de Marc Schulz e Robert Waldinger, e Walden (2018), de H. D. Thoreau.
· O vídeo Acorde para a beleza da vida, da Monja Coen.
· Nossa playlist É sempre verão em algum lugar, com curadoria da Tecla Music, pra desacelerar e entrar no mood do deslumbramento.
Você tem dado atenção aos seus sonhos?
O neurocirurgião e neurocientista norte-americano Rahul Jandial passou a vida estudando o cérebro — e se maravilhando com ele. Mas uma de suas capacidades o intriga mais do que qualquer outra: a de sonhar. Em seu novo livro, Por que sonhamos?, recém-lançado no Brasil pela Editora Sextante, ele explica como os sonhos influenciam vários aspectos da nossa vida. Segundo o autor, eles são como uma forma diferente de pensamento, e seu potencial transformador reside em seu caráter indomável, afastado da lógica cotidiana. Enquanto dormimos, imaginamos futuros possíveis e geramos grandes avanços na arte, no design e na moda. Ao mesmo tempo, recebemos sinais sobre nossa saúde mental e intuição. “Os sonhos podem ajudar você a solucionar um problema, a aprender como tocar um instrumento musical, a falar uma língua, a praticar um esporte”, diz. “E, o mais importante: proporcionar a maior das dádivas, o autoconhecimento”. Por essas e outras, vale dar mais atenção ao que acontece na sua mente enquanto você dorme.
☀️ Atenção, tem novidade chegando!

No episódio mais recente do Desenrola, nosso podcast agora em novo formato, mais dinâmico e informativo, a gente conversou com especialistas e foi às ruas pra entender como anda a relação das pessoas com o descanso, esse cuidado essencial que anda em falta numa cultura que idolatra a produtividade. Quer descobrir como aproveitar de vez os benefícios de relaxar e fazer nada, sem culpa ou desconforto? Ouça agora!
🚨 Alerta de spoiler: Na próxima segunda (07/10), o nosso papo é sobre amnésia digital, fenômeno que acontece quando terceirizamos parte da nossa memória aos dispositivos eletrônicos. O nome do ator? Joga no Google. Como chegar? Só o Waze sabe. Será que essas práticas afetam todos os tipos de memória? Dá pra recuperar a habilidade perdida? Já segue o Desenrola na sua plataforma de áudio preferida pra não perder nenhuma novidade!
texto: Dandara Fonseca | edição: Adriana Setti | arte: Eduardo Gayotto
☀️
Nós somos o The Summer Hunter, uma plataforma de conteúdo que acredita que o verão é mais do que uma estação do ano; é um estado de espírito. Nos siga no Instagram, onde publicamos conteúdo inédito diariamente, sempre às 7h30 da manhã. Ouça também nosso podcast, o Desenrola, e coloque um pouco de música na sua rotina com as nossas playlists em parceria com a Tecla Music. Também explore a nossa linha de acessórios desenvolvida em collab com a Allcatrazes. E pra se manter atualizado sobre as novidades do TSH e ter acesso a conteúdos e benefícios exclusivos, faça parte de nossa comunidade no WhatsApp!