

Crochê, costura, marcenaria, cerâmica, jardinagem… Até pouco tempo atrás, era comum associar essas e outras atividades manuais a figuras mais velhas. Mas, nos últimos anos, os Millenials e, especialmente, a Geração Z — aqueles nascidos entre a metade de 1990 e o início de 2010 — tem se apropriado desses ofícios. Em outras palavras, o hobby de avó é o novo cool.
Hashtags como #embroidery e #ceramics (“bordado” e “cerâmica”, em inglês) acumulam milhões de postagens em redes como TikTok e Pinterest. Até a tradicional marca Singer lançou recentemente uma máquina de costura Wi-Fi focada na Gen Z, que borda a partir de comandos em um tablet e tem serviço de assinatura que dá acesso a projetos de costura e bordado. Mas o que explica todo esse hype?
Mudança de hábitos
O crescente interesse dos mais jovens pelas atividades manuais pode ser visto como um reflexo de várias mudanças comportamentais que já vinham acontecendo há alguns anos, mas foram intensificadas pela pandemia. Com casas noturnas e bares fechados, uma galera teve que reavaliar suas formas de se divertir e buscar alternativas prazerosas pra preencher o tempo livre. Enquanto alguns se voltaram pra prática de exercícios físicos, outros decidiram fazer velas, confeccionar acessórios, pintar etc.
Um novo estudo publicado na revista Frontiers in Public Health sugere que essas tarefas nos fazem enxergar a vida de uma forma mais positiva, desenvolvem a concentração e ajudam a reduzir o stress e a ansiedade. Não foi à toa, portanto, que tanta gente recorreu a hobbies old school na pandemia pra manter a cabeça no lugar. Levando em conta que os índices de saúde mental entre os jovens seguem alarmantes, faz sentido que a tendência continue em alta na era pós-covid.

Após o período de isolamento, essas novas formas de lazer começaram a se misturar com os rolês tradicionais. Um exemplo disso são os cada vez mais populares “drink and paint”. Nesses encontros, os participantes se reúnem pra beber e pintar ao mesmo tempo. As sessões, geralmente conduzidas por um instrutor que ensina técnicas de pintura, têm como objetivo criar um ambiente descontraído e divertido, no qual as pessoas podem explorar sua criatividade enquanto socializam.
Terapia manual
Em uma realidade cada vez mais digital, muitos jovens vêm sentindo a necessidade de se reconectar com o mundo físico. No entanto, devido à natureza viciante de muitas tecnologias — e especialmente das redes sociais —, se manter offline pode ser um desafio. Neste cenário, as atividades manuais surgem como uma forma de reaprender a curtir os momentos de relaxamento longe das telas.
As atividades manuais ainda são uma excelente maneira de desacelerar, pois muitas delas demandam tempo pra serem concluídas. Como afirma o psicólogo Jo Perkins ao The Telegraph, “o lento processo de criar algo é um antídoto pra rápida e instantânea dose de dopamina do mundo on-line em que os jovens de hoje cresceram”.
Ressignificando profissões
Com a perspectiva de que muitas profissões possam ser substituídas total ou parcialmente pela Inteligência Artificial, trabalhos manuais como marcenaria, construção civil, cozinha e jardinagem passaram a ser vistos pela Geração Z como opções profissionais mais seguras e perenes. Estudos mostram que o mercado do artesanato e do DIY (sigla em inglês pra Do It Yourself, “faça você mesmo” em português) está em crescimento no mundo. No Brasil, dados oficiais do Sistema de Informações Cadastrais do Artesanato Brasileiros (Sicab) indicam que o número de artesãos mais que dobrou em 2022. O setor movimenta cerca de R$ 50 bilhões por ano.

Um ofício que vem sendo retomado nos últimos anos é o de letrista. Impulsionada pelo trabalho de pessoas como o artista visual Filipe Grimaldi — que há dez anos pesquisa sobre as letras populares — e pelo poder de alcance das redes sociais, uma nova geração de profissionais surge entre jovens que buscam um trabalho artístico manual com um estilo que não seja norte-americano ou eurocêntrico.
Em meio ao alto custo de vida atual, as atividades manuais também se apresentam como uma oportunidade valiosa pra galera da Geração Z complementar sua renda. Nesse contexto, a prática de cerâmica durante o tempo livre pode ser uma forma de sair da casa dos pais ou conquistar a independência financeira — segundo um estudo da Pew Research Center, apenas 45% dos jovens entre 18 e 34 anos arcam com todas as suas contas sozinhos.
Sua turma
É preciso adicionar a essa equação um grande desejo desta geração: o senso de pertencimento. Assim como muitos jovens compartilham o pace da corrida nos Stories, postar uma foto ou um vídeo realizando uma atividade manual pode conectar você a uma comunidade com interesses em comum. Atualmente, existem até grupos on-line em que as pessoas podem trocar experiências. Um exemplo é o “Café da Tarde das Jovens Senhoras”, criado pela crocheteira Kauane Lopes, onde os participantes compartilham suas vivências com o crochê.
Todo mundo sai ganhando?
As atividades manuais ainda trazem benefícios tanto pro planeta quanto pro bolso. A costura e o bordado, por exemplo, são excelentes formas de transformar e personalizar roupas antigas — sejam suas, sejam de brechó. Reformar móveis com marcenaria e pintura, bem como produzir seus próprios acessórios à mão, também são alternativas que incentivam um consumo mais consciente.
Por fim, essa tendência pode contribuir pra valorizar profissões manuais e criativas que, por muitas décadas, foram consideradas inferiores a outros ofícios. Ao dedicar tempo e esforço pra fazer uma peça de cerâmica ou bordar uma camiseta, por exemplo, passamos a compreender melhor o preço e a importância desses serviços e produtos.
Saiba mais:
· Os canais de Youtube do Clube do Bordado e do Blog do crochê.
· Nosso post sobre a importância dos hobbies.
· O artigo "The Gen-Z Crafting Craze: Upcycling With Craft", do The Modern Muss Magazine.
· O episódio Como escolhemos o que vamos consumir no tempo livre?, do podcast Donas da P* Toda.

Vem aí a segunda temporada do Desenrola!
É isso mesmo! Na próxima segunda (30/9), nosso podcast está de volta — e com um novo formato! Toda semana, a gente vai pra rua e desenrola um assunto relevante na companhia de pessoas que podem ajudar você a levar uma vida solar. Sempre com rigor jornalístico e microfone aberto pra quem quiser palpitar.
No primeiro episódio dessa nova fase, vamos refletir sobre a importância do descanso, hábito que, numa cultura que idolatra a produtividade, virou motivo pra sentir culpa. Além da galera que ouvimos pelas ruas, participam desse papo o psicólogo e escritor Alexandre Coimbra, e a pesquisadora do trabalho Maíra Blasi. Já segue o Desenrola na sua plataforma de áudio preferida pra não perder nenhuma novidade!
texto: Dandara Fonseca | edição: Adriana Setti |
arte: Eduardo Gayotto
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