


A cidade é um universo vasto e diversificado, onde o ser humano é desafiado a criar formas de convivência e a satisfazer suas necessidades, ao passo que busca realizar sonhos e expressar sua criatividade. Dentro dessa estrutura mutante com possibilidades infinitas, qualidade de vida é um conceito que envolve questões subjetivas e direitos básicos — entre eles, a caminhabilidade, ou seja, a capacitação do espaço público pra que seja viável caminhar.
Calçadas espaçosas e decentes, facilidade pra atravessar a rua, iluminação, sombra: tudo isso faz com que andar a pé por um centro urbano seja seguro e agradável. E, levando em consideração que 39% dos deslocamentos nas cidades brasileiras são feitos a pé, segundo dados da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), ter condições dignas pra andar pode melhorar a vida de grande parte da população.
Múltiplos fatores
Segundo o Instituto Caminhabilidade, ONG liderada por mulheres que apoia o desenvolvimento de cidades em que as pessoas sejam prioridade, a caminhabilidade proporciona ambientes justos ao garantir uma série de fatores: acesso, colaboração, sustentabilidade, segurança, acolhimento, saúde e dinamismo pra todas as pessoas — independente de idade, gênero, raça, renda, credo, origem e condições físicas, mentais e emocionais. É por isso que esse conceito é fundamental pro planejamento e o desenvolvimento de cidades mais inclusivas, saudáveis e sociáveis.

Onde estamos
A maior parte das cidades no Brasil são pensadas pra carros. Ou seja, contam com avenidas largas e estacionamentos enormes, enquanto as calçadas e ciclovias ficam apertadas e mal conservadas. Segundo dados da campanha Calçadas do Brasil, realizada em 2019 pela Mobilize Brasil, uma calçada é considerada boa pro pedestre quando tem nota 8. Mas a cidade que teve a melhor média no país foi São Paulo: 6,93. Cuiabá (4,79), Fortaleza (4,53) e Belém (4,52) ocupam as três últimas posições.
Quem mais sofre com a má qualidade das calçadas — e, consequentemente, com a falta de acessibilidade — são os idosos, as pessoas com deficiências físicas e aqueles com alguma lesão corporal momentânea. Falta de rampas e pisos táteis, má sinalização e iluminação, buracos, desníveis… Esses são apenas alguns dos desafios enfrentados.
Durante o levantamento, foi observada a forte interferência de outros dois fatores: o excesso de ruído nas áreas urbanas e a poluição do ar. E não é à toa: semana passada, São Paulo liderou o ranking de cidades com a pior qualidade de ar do mundo.
Pontos diferentes
A segurança é um fator que preocupa a todos, mas em diferentes níveis. Mulheres, pessoas pretas, LGBTQIAP+, estrangeiros de determinados países, entre outras populações sub-representadas, sofrem bem mais na hora de fazer um trajeto a pé com segurança. De acordo com o levantamento Percepções sobre segurança das mulheres nos deslocamentos pela cidade, realizado pelos institutos Locomotiva e Patrícia Galvão, 68% das mulheres tem muito medo de sair sozinha à noite no bairro onde mora. E as preocupações vão desde furto até assédio e estupro.
Um relatório da Opinion Box divulgado no ano passado relatou que 65% dos casais LGBTQIA+ tem medo de andar na rua de mãos dadas por conta da violência tanto verbal quanto física. O lugar onde as pessoas trans paulistanas mais afirmam ter sofrido violências — cerca de quatro vezes ou mais — é nas ruas, segundo dados do Mapeamento de pessoas trans no município de São Paulo.

Só coisa boa
Um bom índice de caminhabilidade proporciona mais encontros e interações sociais, o que fortalece o senso de comunidade e cria um ambiente urbano mais vibrante. Andando a pé também acessamos o comércio de rua, o que induz a um consumo mais local e consciente. Outro benefício que pode ser observado é a melhora na poluição, já que reduz a dependência de veículos motorizados.
Caminhar regularmente também é uma das coisas mais simples que você pode fazer pela sua saúde física e mental. Um relatório publicado recentemente no The British Journal of Sports Medicine com base em 196 estudos sobre o tema concluiu que caminhar pelo menos 11 minutos por dia já reduz significantemente os riscos de desenvolver doenças cardíacas, vários tipos de câncer e a mortalidade em geral. Outra pesquisa recente demonstrou que uma caminhada de meia hora cinco dias por semana pode melhorar o fluxo sanguíneo do cérebro e, consequentemente, o funcionamento cognitivo geral, incluindo a memória.
Pequenos passos
Desde 2012, a Política Nacional de Mobilidade Urbana estabelece que os modos de transportes ativos — entre eles, a caminhada — devem ser prioridade no planejamento municipal. Avaliando 57 projetos implementados desde então, o Instituto Caminhabilidade divulgou recentemente dados sobre o que vem sendo feito pra que tenhamos cidades mais amigas do pedestre.
Segundo os dados, 31,6% dos projetos implantados no período avaliado está em áreas marginalizadas, o que tem um forte impacto positivo, uma vez que é nas periferias que se caminha mais, devido à dificuldade de acesso ao transporte público e privado. O Nordeste foi a região com mais projetos (26) de caminhabilidade desenvolvidos desde 2012. E, desde 2018, a implantação de projetos de caminhabilidade se intensificou em todo o Brasil, com destaque aos parques lineares que, além de serem áreas de esporte e lazer, funcionam como eixos de deslocamentos ativos, a pé e de bike.
Bons exemplos
Um exemplo citado como bem-sucedido é o Via Parque em Caruaru (PE), que transformou 8 km da linha férrea que cruza 16 bairros da cidade em um corredor de deslocamentos ativos. Outros casos que merecem destaque são o Parque Linear das Hortas do Dirceu, em Teresina (PI), e a requalificação do Parque Rachel de Queiroz, em Fortaleza (CE).
A reurbanização do centro de Conde, município com cerca de 25 mil habitantes na Paraíba, venceu o Prêmio Cidade Caminhável na categoria pequenas cidades. O projeto promoveu o redesenho dos espaços públicos, proporcionando mais segurança viária por meio de ruas compartilhadas, diminuição de velocidades e priorização do caminhar.
No âmbito mundial, a cidade de Copenhague, capital da Dinamarca, é amplamente reconhecida por sua infraestrutura voltada pra pedestres e ciclistas. A cidade possui muitas ciclovias, calçadas largas e áreas de pedestres, além de um ambiente urbano planejado pra promover caminhadas e a mobilidade sustentável. O planejamento de Barcelona também é notável por suas ruas em grade, conhecidas como o “Plano Cerdà”, que facilitam a navegação a pé. Nos últimos anos, algumas das ruas mais movimentadas da capital catalã estão sendo transformadas em grandes praças e eixos verdes — onde carros, salvo raras exceções, não entram.
Saiba mais:
· O livro Caminhar, uma filosofia (2021), de Frédéric Gros.
· O episódio O tesão de morar em São Paulo, do Desenrola, nosso podcast.
· O TEDx The general theory of walkability, apresentado pelo urbanista Jeff Speck.
· Os sites do Instituto Pólis, referência nos estudos sobre o Direito à Cidade, e do Mobilize Brasil, portal sobre mobilidade urbana sustentável.
Como você reage diante de um conflito?
Em um mundo cada vez mais conflituoso, saber negociar e apaziguar embates difíceis é fundamental. Esse é o assunto do livro Sim, é possível: Sobreviver e prosperar em uma era de conflitos, do antropólogo norte-americano William Ury, recém-lançado no Brasil pela Editora Sextante. Cofundador do Programa de Negociação de Harvard, e autor do best seller Como chegar ao sim você mesmo, entre outros, ele esteve envolvido em algumas das disputas mais complexas da humanidade nas últimas décadas. Como negociador, ajudou a destravar o conflito entre a Rússia e a Chechênia, o Apartheid na África do Sul e a guerra civil da ex-Iugoslávia, além de participar de iniciativas de paz no Oriente Médio. Suas técnicas, no entanto, se aplicam a todo tipo de conflito. Segundo ele, qualquer pessoa pode se tornar um “possibilista”.
texto: Dandara Fonseca | edição: Adriana Setti |
arte: Eduardo Gayotto
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