

Os avanços na medicina e as políticas públicas voltadas pra saúde têm permitido que a gente viva cada vez mais. A expectativa é que, no final da década, mais de 1 milhão de pessoas em todo o mundo ultrapassem os 100 anos de idade, de acordo com dados da ONU — um número dez vezes maior do que o registrado em 1990. No entanto, tempo de vida não é sinônimo de qualidade de vida. E como mostra um estudo do Instituto Locomotiva, hoje, a prioridade da maior parte dos brasileiros é viver bem, e não mais.
São vários os fatores que contribuem pro bem-estar na velhice, mas um dos principais é, sem dúvida alguma, a saúde. E as demências — doenças neurodegenerativas que afetam a função cognitiva do cérebro — representam um dos principais obstáculos pra que essa fase seja vivida da melhor forma possível. O lado positivo é que algumas mudanças de hábitos podem ajudar a prevenir esses problemas.
Contextualizando
De acordo com a Organização Mundial de Saúde, as demências são doenças que, com o tempo, destroem as células nervosas e danificam o cérebro, levando a um declínio progressivo na memória, no pensamento, na linguagem e em outras habilidades mentais. Embora possam ter diversas causas e maneiras de se manifestar, todas exercem um impacto negativo na cognição, o que interfere nas atividades diárias e reduz a autonomia do indivíduo.
A OMS estima que, em 2023, 55 milhões de pessoas viviam com algum tipo de demência em todo o mundo. Com o envelhecimento da população global, é esperado que esse número aumente nos próximos anos, atingindo 82 milhões até 2030. A Doença de Alzheimer é a forma mais comum de demência, representando entre 60% a 70% dos casos. Segundo o relatório World Alzheimer Report de 2020, da Alzheimer’s Disease International, o custo mundial da demência é estimado em cerca de US$ 1 trilhão por ano. Dados como esses fazem com que muitas organizações considerem que essa pode ser uma das maiores crises globais de saúde do século 21.
Novidades importantes
A boa notícia é que um relatório publicado pela revista científica The Lancet aponta que 45% dos casos poderiam ser evitados se eliminássemos 14 fatores de risco, mudando alguns hábitos e prevenindo certas condições de saúde. Segundo a publicação Dementia prevention, intervention, and care 2024, ainda que a herança genética possa aumentar a probabilidade de demências, os fatores de risco apontados são mais importantes — uma ótima notícia pra quem tem um histórico familiar desfavorável nesse sentido.

Nem todos os fatores têm o mesmo peso no que se refere a aumentar o risco. Os mais significativos pra pessoas de 18 a 65 anos, segundo o relatório, são a perda auditiva e o colesterol “ruim” alto. Já pra pessoas de 65+, o que pesa mais é o isolamento social.
A baixa escolaridade na infância também aparece como um aspecto que tem forte relação com as demências. Por outro lado, o estímulo cognitivo é fundamental pra resistir a alterações cerebrais e lesões que se acumulam ao longo da vida.
Não é só força de vontade
Pela lista de fatores de risco, fica claro que a vulnerabilidade socioeconômica e a dificuldade de acesso ao sistema de educação e saúde interferem diretamente na prevenção de demências. Fatores externos, como exposição à poluição, também fogem ao controle de grande parte da população mundial. Pesquisas como a realizada pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos demonstram que as populações de baixa renda frequentemente enfrentam uma maior exposição à poluição, seja devido à proximidade com fontes emissoras, seja pela dificuldade de acesso a cuidados médicos e intervenções que poderiam mitigar os seus impactos no corpo.

Ao seu alcance
No entanto, existem hábitos que podemos mudar pensando em ter uma velhice melhor. O estudo recomenda começar a prevenção o mais cedo possível — jovem, isso vale pra você —, mas nunca é tarde demais. A seguir, apresentamos algumas sugestões fornecidas pelos pesquisadores:
Praticar exercícios físicos
Qualquer forma de movimentar o corpo já ajuda na prevenção das demências, mas a musculação é especialmente crucial pra sua qualidade de vida — e independência — na velhice. E é importante incluir aqueles exercícios que quase todo mundo odeia. Por exemplo: a prancha é uma das maneiras mais eficazes de aumentar a força do core, o centro do nosso corpo, que regula a postura, o equilíbrio e a estabilidade. Já o agachamento reforça os grandes músculos da perna e mobiliza as articulações do quadril, do joelho e do tornozelo, fazendo com que você não precise da ajuda de alguém pra se sentar e levantar daqui algumas décadas.
Prevenir a perda auditiva e de visão
Usar óculos de sol com 100% de bloqueio dos raios UV, reduzir o brilho dos dispositivos eletrônicos, fazer pausas regulares longe das telas, manter a diabetes controlada, não coçar os olhos… Essas e outras medidas podem atenuar a perda de visão que, em maior ou menor grau, afeta a maioria de nós a partir dos 40 anos. Já pra prevenir a perda auditiva, é recomendável usar protetores auriculares em ambientes com ruído intenso, manter o volume de fones de ouvido e aparelhos de áudio abaixo de 60% da capacidade máxima — nível seguro recomendado — e adotar boas práticas de higiene auditiva.
Cultivar uma vida social
De acordo com um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mais de um terço (34%) dos brasileiros com 50 anos ou mais apresenta sintomas depressivos, e 16% relata sentir solidão. Pra evitar esse cenário, é importante explorar ambientes diferentes e estar aberto a novas conexões. Por exemplo, na Casa The Summer Hunter em São Paulo, a escritora Isabel Dias disse que, ao perceber que estava se sentindo muito sozinha, foi fazer teatro. Quem sabe essa ainda não é uma oportunidade de você descobrir um novo hobbie?

Saiba mais:
· A série Como Viver até os 100 (2023), da Netflix.
· O episódio Como lidar com Alzheimer e outras demências, do podcast Finitude.
· O novo livro The Joy of Connections: 100 Ways to Beat Loneliness and Live a Happier and More Meaningful Life (2024), de Ruth Westheimer.
· A matéria Longevidade feliz: estratégias para envelhecer com bem-estar, de Alessandro Fernandes pra Vida Simples.
texto: Dandara Fonseca | edição: Adriana Setti |
arte: Eduardo Gayotto
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