

Em tempos de aesthetic, em que a todo momento surge nas redes uma nova tendência com o sufixo “core” incentivando a trocar todo o armário ou a decoração de casa, o underconsumption core — algo como “tendência do subconsumo”, em inglês — chega pra tentar dar um basta. Exaustos de conteúdos virais que promovem o consumo exagerado, como prateleiras com mais itens de skincare do que uma pessoa consegue usar na vida toda e looks do dia sempre inéditos, os adeptos desse movimento publicam vídeos pra mostrar maquiagens quase no final, uma única legging no armário e iPhone com mais de cinco anos de uso.

Nadando contra a corrente
Os fundamentos do movimento podem parecer óbvios, mas se destacam em meio a um mar de conteúdos que tentam a todo custo nos vender alguma coisa. Afinal, se as redes sociais surgiram com a promessa inicial de conectar pessoas, hoje elas vêm se consolidando como mais um espaço pra conectar pessoas a produtos. Não só pela publicidade direcionada com base em nossos dados pessoais, como pelos influenciadores que servem de vitrine pras marcas.
Nesse contexto, chamar de “subconsumo” um hábito que costumava ser comum — e, pra muita gente, continua sendo — é uma forma de contrastar com a máxima que rege as redes (consumir, consumir, consumir) e de chamar a atenção das gerações que cresceram dentro dessa dinâmica.

E cadê a novidade?
Movimentos que promovem a sustentabilidade e o consumo consciente não são inéditos, claro. Entre os mais conhecidos está o minimalismo, que ganhou força no final dos anos 2000 pregando o “ter menos com mais qualidade” e foi parar, inclusive, nas revistas de decoração com status de elegância. Outro exemplo é o slow fashion, uma resposta às fast fashion que aplica a lógica da qualidade e durabilidade às roupas, além de defender a produção ética.
A diferença do underconsumption core é a forma: produtos antigos em bom estado ou desgastados após muito tempo de uso, bem como itens tecnologicamente defasados ou em quantidade radicalmente reduzida são apresentados de forma romantizada. Até então algo raro nas redes, chega a causar estranhamento ver uma sequência de imagens que inclui fone de ouvido com fio, embalagem de hidratante cortada ao meio pra usar até a última gota e toalha de banho com pequenos furos. De preferência com a música Don't Know Why, de Norah Jones, ou uma versão acelerada de Birds of A Feather, de Billie Elish, como trilha sonora.
Essa linguagem própria das redes, principalmente entre a Geração Z, contribui pra que o tema da sustentabilidade alcance mais pessoas, já que cria uma roupagem viral ao consumo consciente. Trata-se de uma “antítese memética pra um ciclo de hype consumista ao qual nos acostumamos”, como definiu a analista de tendências Shanu Walpita, do London College of Fashion, em reportagem do jornal britânico The Guardian.

Outras motivações
Além de atender a uma insatisfação coletiva pelo excesso de indução ao consumo, vale salientar que o underconsumption core surge em um contexto de ressaca das compras excessivas na pandemia. Embaladas pelo tédio e pela angústia do isolamento social, muitas pessoas acabaram se permitindo gastar mais nesse período: máquina de pão, skincare, velas aromáticas, aparelhos pra se exercitar em casa… Outras se jogaram nas compras pós-vacina pra tentar compensar o tempo perdido, acumulando ingressos de festivais, mudando de casa e investindo em viagens. Agora é hora de apertar os cintos.
Além do mais, apesar de algumas melhorias na economia, a maior parte dos países ainda tenta solucionar a crise financeira desencadeada por esse período. A população, claro, sente os impactos, principalmente entre as classes sociais mais vulneráveis. Especialistas apontam que movimentos que promovem o consumo consciente costumam ganhar destaque — e um novo nome — nesses momentos de recuperação econômica.
E é claro que o crescimento da consciência ambiental também puxa o underconsumption core. Com os efeitos do aquecimento global cada vez mais presentes em nossas vidas, mais pessoas buscam formas práticas de reduzir os danos ao planeta — e consumir apenas o necessário, reduzindo o descarte, é algo que está ao alcance de todos.
Ufa, não sou só eu
Pode até ser que algumas pessoas acabem sendo influenciadas a comprar menos pelo underconsumption core, mas a real importância do movimento é acolher quem já vive sem exageros — seja por uma questão financeira, seja por bom senso — e cansou da pressão por acompanhar o core da vez. É uma forma de trocar experiências e se sentir parte de algo maior. Lembrando que esse sentimento de pertencimento é uma das maiores forças das tendências de consumo. Então por que não usá-lo a favor do subconsumo ou, como muitos preferem dizer, do consumo normal?
Pra quem sempre viveu na escassez, ver sua necessidade transformada em trend pode ser ofensivo, mas o acolhimento promovido pelo underconsumption core é válido especialmente em um país com tantos contrastes sociais como o nosso. Se por um lado temos 77% dos lares brasileiros endividados — sendo 60% deles devido ao cartão de crédito — por outro somos a nação em que os influenciadores mais afetam o poder de decisão de compra dos consumidores. Então, como estamos precisando reduzir os gastos por aqui, faz toda a diferença que o conteúdo que a gente acompanha nas redes nos apoie nesse sentido.
Saiba mais:
· O artigo Economia da atenção: qual é o preço que pagamos pelas redes sociais?, do portal Nath Finanças.
· O livro Menos é mais: um guia minimalista para organizar e simplificar a vida (2016), de Francine Jay.
· O episódio Underconsumption vs. Overcomsumption, do podcast Money Feels.
· O documentário Minimalismo Já, disponível na Netflix.
· A matéria Tired of influencers, TikTok users try ‘underconsumption core’ to cut costs, do The New York Times.

No último de cinco episódios do Desenrola gravados na Casa The Summer Hunter em São Paulo, a gente investiga como as mulheres estão transformando a cena musical no Brasil — seja nos palcos, como cantoras, instrumentistas e DJs, seja na técnica, na produção e no agenciamento. A jornalista Renata Simões conversa com Tiê, cantora, compositora e empresária; Isadora Almeida, produtora e uma das apresentadoras do podcast Vamos Falar Sobre Música?; e Tika, cantora, compositora, musicista e produtora musical. Ouça agora!
texto: Clara Novais | edição: Adriana Setti |
arte: Eduardo Gayotto
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