

Não é de hoje que as redes sociais estão repletas de vídeos de pessoas caminhando por aí com os pés no chão — e as cenas acontecem até em grandes cidades, como Nova York, Sydney e Londres. Se você faz parte do mundo fitness, já deve ter visto uma galera discursando sobre os diversos benefícios de tirar o tênis na hora de correr ou na academia, sobretudo pra puxar ferro. Recentemente, um vídeo de crianças dinamarquesas mergulhando não só os pés, mas seus corpos inteiros em poças de lama viralizou na Internet. Mas será que essas trends têm embasamento científico?
Pé, meu querido pé
Andar ou fazer outras atividades descalço exige que os músculos dos pés — especialmente os menores, que não são muito usados quando estamos calçados — trabalhem mais. De acordo com o Dr. Bruce Moseley, cirurgião ortopédico do Baylor College of Medicine, nos Estados Unidos, esse maior estímulo proporciona um pé mais forte e adaptável.

Um estudo publicado na revista Nature em 2021 mostrou que participantes que usaram calçados minimalistas — que oferecem pouco ou nenhum suporte — aumentaram a força dos pés em mais de 57% ao longo de seis meses. Eles também apresentaram uma melhora no equilíbrio e uma redução no risco de quedas. Além disso, o professor de Ciências Biológicas e presidente do Departamento de Biologia Evolutiva Humana da Universidade de Harvard, Daniel E. Lieberman, defende em suas pesquisas a importância dos calos que desenvolvemos ao andar descalços.
Ganhando resistência
Diversos estudos já comprovaram que pessoas que cresceram em contato com terra, lama, poeira e afins são menos suscetíveis a doenças como asma e alergias, entre outras. Além disso, uma das bactérias presentes no solo, a Mycobacterium vaccae, têm um efeito anti-inflamatório no cérebro, o que pode reduzir o stress.
No entanto, pesquisas recentes têm descoberto todo um novo universo de micróbios que vivem sob nossos pés e podem fazer muito bem pro microbioma humano — ou seja, os micro-organismos (bactérias, fungos, vírus, etc.) que vivem naturalmente dentro do nosso corpo, e que afetam diretamente nossa saúde física e mental em vários aspectos.

Uma pesquisa finlandesa com crianças de creches urbanas equipadas com tanques de “solo de floresta” confirmou que elas tinham um sistema imunológico e um microbioma mais saudáveis do que as que brincavam em pátio de cimento. Não à toa, escolinhas que permitem que os pequenos literalmente chafurdem na lama são cada vez mais comuns na Europa.
Contato com a terra
Algumas das pessoas que defendem o maior contato dos pés com o chão são adeptas do “grounding”, também chamado de “earthing” — ou, em português, “aterramento corporal”. A teoria, que tem origem em ideias do início do século 20, ganhou força nas últimas décadas, principalmente após o livro Earthing: The Most Important Health Discovery Ever?, de 2010, escrito pelos autores Clinton Ober, Martin Zucker e pelo cardiologista Stephen Sinatra.
Segundo explica Sinatra no documentário Earthing, ao colocar o pé descalço no chão, você estaria em contato com a Terra, cujos elétrons são absorvidos pelo corpo. “É como tomar um punhado de antioxidantes através dos pés”, diz o médico. De acordo com os autores, o ser humano viveu milhões de anos aterrado até que, com a invenção da borracha sintética nos anos 1960, a sola dos calçados passou a nos isolar eletricamente da Terra. Dessa forma, acumulamos radiação eletromagnética dos dispositivos modernos, o que faz com que o corpo fique eletricamente carregado e propenso à inflamação.
Alguns estudos recentes apontam que o aterramento pode melhorar o sono; diminuir a dor crônica; regular a pressão sanguínea; aliviar dores de cabeça e tensão muscular; reduzir a inflamação; ajudar a superar o jetlag e suavizar sintomas relacionados à menstruação e alterações hormonais da menopausa. No entanto, parte da comunidade científica argumenta que esses estudos ainda são poucos e bastante questionáveis — seja pela metodologia, seja pelo conflito de interesses.
Embora não seja possível garantir que passar um tempo descalço resultará em absorção de elétrons ou ganhos pra saúde, uma coisa é certa: essa atitude não traz prejuízos. Fazer uma pequena trilha descalço ou caminhar na praia sentindo a areia entre os dedos são excelentes maneiras de aproveitar a vida ao ar livre, que oferece uma série de outros benefícios.
E o treino?
Além de fortalecer os músculos do pé, ao praticar exercícios físicos descalço, o corpo é obrigado a fazer um esforço maior pra se estabilizar, recrutando os glúteos e o abdômen pra essa batalha. Não é à toa que atividades que trabalham o corpo integralmente, como o Pilates e o yoga, são praticadas sem sapatos desde sempre. Passar mais tempo sem tênis ainda pode aumentar a capacidade de situar-se no espaço, criando uma maior consciência corporal, o que contribui pra um melhor equilíbrio.
Por outro lado, não há evidências científicas de que treinar descalço tenha um impacto significativo na performance. Muito pelo contrário. Em casos como o levantamento de peso, como mostra este estudo, um calçado apropriado ajuda a distribuir melhor a carga e aumenta a amplitude do movimento.
Treinar descalço também pode ser arriscado pra quem tem tornozelos instáveis e implica dois riscos óbvios: o de derrubar um peso no pé sem pelo menos a proteção mínima de um tênis e de pegar alguma doença de pele, como pé de atleta e micose de unha. É preciso levar todas essas variáveis em consideração na hora de avaliar se a prática faz sentido pra você.
Bom senso, sempre
Vale reforçar: nada de colocar o pé descalço nas ruas de grandes cidades ou no lodo de uma enchente, ok? Nesses casos, os riscos podem superar os ganhos. A “sujeira” benéfica é aquela com que entramos em contato na natureza ou no campo, em ambientes sem poluição.

Saiba mais:
· O livro Superintestino (2022), de William Davis, com dicas pra restaurar seu microbioma e assim fortalecer a saúde, regular o peso e melhorar o humor.
· O perfil Nunca vi 1 cientista, onde Laura Marise e Ana Bonassa respondem dúvidas científicas com credibilidade e bom humor.
· Essa matéria da Time sobre shinrin-yoku, prática japonesa conhecida por aqui como “banho de floresta”.
· O artigo “Grounding” corporal não vai ajudar a sua saúde, da revista digital Questão de Ciência.
texto: Dandara Fonseca | edição: Adriana Setti |
arte: Eduardo Gayotto
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