O jovem que acabou apaixonado pelo reflexo de sua imagem: esse é o enredo do mito grego que dá nome ao transtorno de personalidade narcisista. Desde o final do século 19, estudiosos vêm se debruçando sobre essa condição. No entanto, nos últimos anos, parece que meio mundo tem uma mãe, um ex-namorado ou um chefe narcisista — e milhares de conteúdos sobre o assunto são despejados diariamente na Internet. Será que o planeta está repleto de pessoas com esse transtorno de personalidade ou isso é apenas mais um reflexo da roleta de diagnósticos de saúde mental das redes sociais, que nos leva a patologizar comportamentos negativos?

A definição

O narcisismo começou a ser definido em termos psicológicos no final dos anos 1800. Paul Näcke, Sigmund Freud, Robert Waelder e Karen Horney foram alguns dos psiquiatras e psicanalistas que, ao longo dos anos, escreveram e aprimoraram estudos sobre o tema. Mas foi em 1980 que a Associação Americana de Psiquiatria reconheceu oficialmente o transtorno de personalidade narcisista, estabelecendo critérios específicos pro seu diagnóstico. De acordo com a organização, a condição compreende “um padrão generalizado de grandiosidade (na fantasia ou no comportamento), necessidade constante de admiração e falta de empatia”.

Em outras palavras, pessoas com esse transtorno superestimam suas próprias capacidades, exagerando sua importância e realizações. Elas acreditam que merecem um tratamento especial a todo momento, gostam de ser o centro das atenções e buscam constantemente ser elogiadas e validadas pelos outros. Em contrapartida, subestimam a capacidade alheia, diminuindo quem está ao seu redor. Outras características comuns incluem egoísmo, arrogância e apego a fantasias de influência e poder.

Todo mundo é?

Como essas características são comuns no ser humano, é possível que alguém com quem você conviva tique em algumas casas — e que até você se identifique com parte desses traços de personalidade. Mas isso está longe de ser um diagnóstico. Assim como outras condições psicológicas, o narcisismo é um espectro, e suas características podem variar em intensidade e tipo de manifestação. Pra psicanalista alemã Karen Horney, por exemplo, o narcisismo pode transitar de uma autoestima saudável ao estado patológico.

Quem tem transtorno de personalidade narcisista sente seu impacto em vários aspectos da vida: estudos, trabalho, relacionamentos amorosos, convivência familiar etc. Pode ser conveniente atribuir a culpa pelo fim de uma relação ou por uma situação de trabalho complicada ao fato da outra pessoa ter essa condição. No entanto, nessas horas, é preciso lembrar que seu ex pode ser simplesmente egoísta sem padecer de nenhum transtorno, assim como seu chefe arrogante ou sua tia que se comporta como um pavão.

De onde vem o hype?

Mas será que realmente estamos enfrentando um aumento de narcisistas no mundo? No livro Narcisism Epidemic: Living in the Age of Entitlement, de 2009, os psicólogos norte-americanos Jean Twenge e W Keith Campbell argumentaram que a cultura do individualismo, intensificada principalmente após a década de 1970, contribuiu pra uma explosão do narcisismo. Ao analisar os dados de 1980 a 2000, até fazia sentido. Mas vários estudos do novo século, como este de 2017, revelaram uma diminuição no número de pessoas com esse transtorno. Para os cientistas que formularam a teoria, as redes sociais e sua tendência de “fazer as pessoas se sentirem inadequadas” poderiam estar relacionadas a essa queda.

Assim, o principal motivo pra percepção de um aumento no número de narcisistas é, sem dúvida, o fato de estarmos falando mais sobre o assunto, o que nos leva a observar mais traços considerados compatíveis nas pessoas ao nosso redor. Por um lado, é positivo que se consuma mais conteúdo sobre o tema, já que a informação conscientiza e oferece suporte àqueles que convivem ou já conviveram com alguém que tem o transtorno. Por outro lado, todo cuidado é pouco ao usar a linguagem clínica, especialmente com base em conteúdos difundidos sem rigor científico nas redes sociais. Essa atitude pode patologizar comportamentos normais e espalhar muita desinformação.

Como lidar

Conviver com alguém que apresenta muitos traços narcisistas pode resultar em consequências como baixa autoestima e sentimentos de desvalorização. Esses e outros fatores podem aumentar significativamente os níveis de stress e ansiedade e, a longo prazo, causar danos psicológicos sérios, como depressão e traumas emocionais.

Ao perceber que os comportamentos de alguém estão fazendo mal a você, é mais proveitoso considerar até que ponto deseja manter contato com essa pessoa do que sair por aí atribuindo diagnósticos a ela. Realmente vale a pena compartilhar suas alegrias? A ideia de se afastar, se proteger e depender menos dela traz alívio a você? Pequenas atitudes podem garantir uma enorme melhora na sua saúde mental.

Saiba mais:

· O livro A cultura do narcisismo: Uma era de expectativas decrescentes, de Christopher Lasch, publicado pela primeira vez em 1979.
· O episódio A Síndrome de Succession e o novo Narcinísmo, do podcast A loucura nossa de cada dia.
· A matéria What Happens When We Decide Everyone Else Is a Narcissist, da The New Yorker.
· O vídeo O que é narcisismo?, do psicanalista Christian Dunker para o YouTube da Casa do Saber.
· Nosso post sobre o fenômeno dos termos da psicologia terem saltado dos consultórios às mesas de bar e redes sociais.

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