Você dá um scroll sem fim no menu do delivery e não encontra algo que tenha vontade de comer. Fica arrastando pro lado no app de relacionamento e ninguém parece interessante. Encara o guarda-roupa sem conseguir escolher um look pra vestir. Em um mundo onde falta tanto pra tanta gente, é absurdo — e até imoral — abrir uma geladeira cheia e pensar que “não tem nada pra comer”. Mas existe um fenômeno psicológico por trás desse comportamento: o paradoxo da escolha. Aqui, a gente explica melhor o que ele significa.

Sem reação

No livro O paradoxo da escolha, de 2004, o psicólogo norte-americano Barry Schwartz explica que as sociedades industriais ocidentais acreditam que o bem-estar de seus cidadãos tem uma relação direta com a liberdade individual e a quantidade cada vez maior de opções em diversos setores. No entanto, essa mentalidade se tornou um problema — e não uma solução.

Isso porque, segundo Barry, na maioria das vezes, o excesso de possibilidades resulta em paralisia ao invés de liberdade. Essa dificuldade de decidir pode afetar tanto coisas materiais quanto emocionais — do look do dia ao tipo de trabalho que você deseja. Isso se aplica a várias áreas da nossa vida: educação, carreira, amizade, sexo, relações amorosas, criação dos filhos, espiritualidade, consumo etc.

Em seu TED, de 2005, o psicólogo cita um bom exemplo: na época, os registros de investimento da Vanguard, maior gestora de fundos de investimento do mundo, mostravam que, pra cada 10 fundos de aposentadoria diferentes que o empregador oferecia, a taxa de participação caía 2%. Ou seja, se eram oferecidos 50 fundos, 10% menos empregados participavam do que se fossem oferecidas cinco alternativas. A dificuldade de escolha era tão grande que, mesmo envolvendo ganhar mais dinheiro, as pessoas preferiam deixar pra depois — spoiler: esse depois nunca chega.

Já um estudo de 2016 feito pelo instituto Reelgood and Learndipity Data Insights concluiu que as pessoas demoram, em média, 18 minutos escolhendo um filme na Netflix. Multiplique esse tempo pelo número de streamings que você assina hoje e é possível que você passe horas por semana sem apertar o play — ou que você desista no meio do caminho.

Podia ser melhor

Digamos que você consiga superar a paralisia — e a sensação de agonia que ela provoca —, tomando uma decisão. Mesmo assim, ter uma enorme gama de possibilidades costuma resultar em uma menor satisfação com a escolha feita. Isso porque, ao mínimo sinal de incômodo, a mente vai buscar os pontos positivos das opções descartadas. Por exemplo: ao viajar, você descobre que a cama do lugar alugado não é muito confortável. Imediatamente surge o pensamento: “provavelmente a cama da outra casa que vi seria melhor”.

O aumento das possibilidades na vida das pessoas eleva as expectativas. Se antes nos contentávamos com as poucas opções oferecidas, hoje esperamos encontrar algo perfeito — o que, honestamente, quase nunca acontece.

Ah, as consequências...

Quando existe apenas uma opção, é possível atribuir à sociedade a responsabilidade por uma decisão errada. Afinal, você não tinha muito o que fazer. Porém, quando há várias delas e, mesmo assim, você considera ter feito a escolha errada, o sentimento é que a culpa é inteiramente sua. De acordo com Barry Schwartz, essa autopunição é um dos principais fatores responsáveis pela explosão dos casos de depressão e de suicídio nas últimas décadas. As pessoas têm expectativas altas, se frustram, ficam menos satisfeitas e culpam a si mesmas, gerando um grande impacto psicológico.

O outro lado

Apesar dos aspectos negativos, ter mais de uma opção de escolha pode sim melhorar a nossa qualidade de vida. Essa realidade nos permite ter mais controle sobre nosso destino e tomar decisões que estão alinhadas com nossos valores e crenças. Também é importante destacar que, em uma sociedade capitalista, o acesso a diversas opções muitas vezes está ligado ao poder financeiro. Considerando que uma grande parcela da população em muitos países vive com recursos limitados, a falta de possibilidades de escolha ainda representa um problema maior do que o excesso de opções.

Saber o melhor

Psicóloga e economista canadense que estuda sobre escolhas, Sheena Iyengar argumenta que o grande problema reside na cultura que nos faz acreditar que escolher é sempre a melhor opção. Pra ela, hoje, somos frequentemente responsáveis por tomar decisões sobre coisas que não trazem benefícios e ainda nos levam a pensar obsessivamente: “e se eu tivesse escolhido diferente?”. Por isso, reduzir o número de opções em áreas nas quais isso é possível, como no nosso guarda-roupa ou no número de serviços de streaming, pode ser uma solução viável.

Quando falamos de decisões mais complexas, vale lembrar que não existe um caminho certo, mas sim o que faz mais sentido pra cada indivíduo, considerando as consequências positivas e negativas no futuro. E é fundamental entender que está tudo bem escolher algo e depois mudar de ideia. Poucas decisões são tão definitivas assim.

Saiba mais:

· O TED Como fazer escolhas difíceis, da filósofa Ruth Chang.
· Nosso post sobre como deixar de sentir tanta culpa.
· O livro A arte da escolha (2013), de Sheena Iyengar.
· O episódio A era do Exagero, do podcast CaosCast; e Tomando decisões difíceis, do podcast Afetos.
· O vídeo Somos livres pra escolher?, de Lucas Akira Nakahara Guimarães pra Casa do Saber.

No último episódio da primeira temporada do Desenrola, convidamos Alana Anijar, psicóloga especialista em Terapia Cognitivo Comportamental, criadora do podcast e do livro Psicologia na prática, e Chico Barney, jornalista e colunista do Splash UOL, pra refletir quando reclamar faz sentido e quando essa atitude se torna um problema. Ouça agora.

Durante essa pausa, aproveite pra seguir o Desenrola e avaliar o podcast com cinco estrelas na sua plataforma de áudio favorita. Voltamos em breve!

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