

Almoçar com a família, encontrar os vários grupos de amigos, dormir, tirar um tempo pra fazer nada, lavar o banheiro, passear com as crianças no parque… Você já desejou ter um dia a mais no fim de semana pra conseguir fazer tudo o que gostaria, certo? Pois saiba que, pra algumas pessoas, essa já é uma realidade — e, ao que tudo indica, a tendência pode se expandir pra mais gente.
Desde janeiro deste ano, 21 empresas brasileiras adotaram a semana de quatro dias de trabalho, em um piloto da 4 Day Week Brazil. Assim como em outros lugares onde o experimento já foi realizado, como Alemanha, Reino Unido e Suécia, o saldo por aqui é positivo. Mas isso não significa que essa mudança seja simples de implementar. A seguir, a gente conta o que essa galera está fazendo pra dar certo.
Do começo
O movimento 4 Day Week Global surgiu na Nova Zelândia em 2019, como uma resposta às crescentes discussões sobre a toxicidade da nossa relação com o trabalho, que pode ser observada nos altos níveis de burnout e na tendência do “quiet quitting” — ou seja, de fazer o mínimo necessário no trabalho. A proposta da iniciativa é criar uma cultura de trabalho que valorize não apenas a produtividade, mas também o bem-estar dos trabalhadores.
No Brasil, empresas dos setores de saúde, jurídico, comunicação, tecnologia, alimentação e entretenimento passaram por um treinamento de três meses pra participar do piloto da 4 Day Week. Mais de 70% dessas organizações está testando a semana de quatro dias com todos os funcionários, enquanto seis decidiram reduzir a jornada apenas em alguns departamentos. As empresas também puderam escolher a melhor estratégia: adotar a sexta-feira como o terceiro dia de descanso ou implementar um sistema de rodízio entre as equipes.
Pontos altos
Os resultados dos primeiros três meses de experimento são animadores: 57,9% dos colaboradores relatou um maior equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, segundo dados coletados pela 4 Day Week Brazil, 4 Day Week Global e parceiros como FGV-EAESP e Boston College.

Em relação às empresas, 61,5% percebeu uma melhoria na execução de projetos e 58,5% observou mais criatividade na realização das atividades. Outro dado interessante é que 28,6% dos funcionários afirmou que não mudaria de emprego pra trabalhar cinco dias por semana, mesmo ganhando mais.
Avaliando comportamentos
Apesar de se mostrar como um caminho cada vez mais viável, não dá pra esperar que a sua empresa implemente a semana de quatro dias úteis de uma hora pra outra e que todos os benefícios citados venham naturalmente, sem esforço. Muitas mudanças são necessárias pra que esse esquema funcione.

Estudiosos e participantes do experimento identificaram hábitos que atuam como inimigos da produtividade em um dia de trabalho. No topo da lista estão as reuniões ineficientes: longas, com muita gente e sem a presença dos tomadores de decisão. No relatório Asana Anatomy of Work Index 2022, cerca de 70% dos participantes afirmou que as reuniões os impedem de trabalhar e concluir todas as tarefas.
Outros obstáculos incluem a falta de planejamento de fluxos e a comunicação ineficiente, com vários canais ao mesmo tempo, o que dificulta a localização de informações. Distrações e interrupções durante o horário de trabalho também prejudicam o rendimento. Um estudo da Universidade da Califórnia Irvine, nos EUA, descobriu que, cada vez que perdemos o foco, demoramos em média 23 minutos e 15 segundos pra retomar a concentração anterior à interrupção.
Boas práticas
Pra superar obstáculos e fazer com que o trabalho de cinco dias aconteça em quatro, as empresas desenvolveram métodos mais inteligentes de trabalhar e organizar o tempo, que podem servir de aprendizado.
Um bom primeiro passo é reorganizar as reuniões, tornando-as mais práticas e objetivas, com pautas bem definidas e apenas com os tomadores de decisão. Sabe o meme “essa reunião poderia ser um e-mail”? Quem participa do experimento está aplicando esse princípio. Além disso, muitas delas adotaram a estratégia de agendar momentos de hiperfoco, nos quais funcionários devem trabalhar sem interrupções, utilizando ferramentas que bloqueiam notificações ou até mesmo um cartão de “não perturbe” no ambiente presencial.
Tornar a comunicação mais eficiente é essencial pra reduzir as horas de trabalho. Isso inclui rever quais canais usar e o que deve ser discutido em cada um deles, com prazos bem definidos de resposta. Manter ferramentas como Trello e Notion sempre atualizadas com informações e deadlines permite que todo o time fique por dentro do andamento de cada tarefa, promovendo assim a chamada comunicação assíncrona — ou seja, que não precisa acontecer em tempo real. Por último, mas não menos importante, vale utilizar da Inteligência Artificial pra agilizar tarefas burocráticas e operacionais.

Várias saídas
A semana de quatro dias é apenas uma das opções pra tornar nossa relação com o trabalho mais saudável. Além de parecer distante de algumas áreas e profissões, é esperado que nem todo mundo se adapte ou goste desse modelo. Algumas pessoas podem preferir trabalhar cinco dias, ter horários mais flexíveis e não precisar de tantas regras pra forçar uma produtividade que, em alguns casos, pode trazer frustração e ansiedade.
Por essa e outras, também é importante estimular a discussão de medidas como o fim da jornada de trabalho conhecida como 6x1, a redução da carga horária máxima permitida pela CLT, a flexibilização dos horários, o home office e o trabalho híbrido, a possibilidade de aumento da equipe caso as demandas não estejam proporcionais etc. Ainda vale questionar o valor e a importância excessiva do trabalho na nossa sociedade. Faz sentido deixar de fazer o que desejamos e minar a nossa saúde mental em prol da carreira? Esse tem mesmo que ser o propósito central das nossas vidas?
Pra saber mais:
· O TED de Juliet Schor sobre a semana de quatro dias de trabalho.
· Nosso post sobre como convencer seu chefe a manter o home office.
· O livro Não aguento mais não aguentar mais: Como os Millennials se tornaram a geração do burnout (2021), de Anne Helen Petersen.
· O episódio Você não é o seu trabalho, do Desenrola, nosso podcast.
· O movimento VAT - Vida Além do Trabalho, que, entre outras pautas, luta pelo fim da jornada 6x1.

No episódio mais recente do Desenrola, nosso podcast, convidamos a jornalista e pesquisadora da cultura dos influenciadores digitais no Brasil Issaaf Karhawi e o multiartista e criador do centro cultural Lá da Favelinha Kdu dos Anjos pra contar pra gente o que eles já aprenderam na Internet e falar sobre a importância do universo digital pra democratização do conhecimento. Ouça aqui.
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texto: Dandara Fonseca | edição: Adriana Setti | arte: Eduardo Gayotto
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