Assim como começar a trabalhar, casar ou ter filhos, conquistar o próprio CEP costumava ser um dos eventos simbólicos da entrada na vida adulta. Mas as configurações sociais passaram por múltiplas transformações e a própria definição do que é ser adulto ficou bem mais elástica. Nesse cenário, os jovens estão saindo da casa dos pais mais tarde no Brasil e no mundo. Quando saem.

De acordo com um relatório da Pew Research Center, em 2020, 52% dos jovens norte-americanos de 18 a 29 anos moravam com os pais — esse é o maior índice registrado desde 1960. No Brasil, o dado mais recente é de 2015, quando, segundo o IBGE, um em cada quatro jovens entre 25 e 34 anos morava com os pais (60% eram homens). A estimativa é que, de lá pra cá, especialmente após a pandemia, esse número tenha aumentado. O que explica esse fenômeno?

Tá tudo caro

Basta conversar com alguns jovens — ou dar uma olhada no preço dos aluguéis — pra entender que a questão financeira é o principal fator por trás desse comportamento. Embora a maior parte da Geração Z ganhe mais do que seus pais, o alto custo de vida e a precarização do mercado de trabalho influenciam diretamente a “decisão” de não buscar um cantinho próprio. Não é à toa que, em outro estudo da Pew Research Center, apenas 45% dos jovens entre 18 e 34 anos afirmaram ser financeiramente independentes.

Também vale pontuar que, nas últimas décadas, por razões pessoais e sociais — a começar pelo mercado de trabalho cada vez mais saturado em certas áreas —, muitas pessoas passaram a dedicar mais anos de suas vidas aos estudos, fazendo mais de uma faculdade e seguindo com mestrados, pós-doutorados e outras especializações. Durante esse período de formação, nem todos conseguem ganhar uma quantia de dinheiro suficiente pra viver de forma independente.

Me dê (mais) motivos

Um terço da população brasileira de 18 a 24 anos é ansiosa — maior índice de todas as faixas etárias — e pouco mais de 14,1% já foi diagnosticada com depressão, segundo relatório da Covitel de junho de 2023. Essa instabilidade emocional pode tornar a ideia de morar sem a família distante e assustadora. A solidão — recentemente considerada pela OMS um problema global de saúde pública — também pesa nessa decisão. Já reparou que tem muita gente reclamando da falta de conexões genuínas e de amigos íntimos e verdadeiros? Será que a era dos roommates morreu?

Principalmente após a pandemia, muitos jovens também estão mais preocupados com o bem-estar e a saúde dos familiares. E com os casais optando por ter filhos mais tarde, a tendência é que os pais precisem de cuidados especiais um pouco mais cedo. A insegurança de estar longe faz com que, mesmo após atingir certa independência financeira, muitos jovens optem por ficar em casa — a chamada geração canguru.

Tudo depende

Segundo Cauê Martins, que estuda o fenômeno, se pra outras gerações ir embora da casa dos pais cedo era um símbolo de autonomia, hoje já rola uma normalização dessa saída tardia. Com isso, a pressão, ou mesmo o constrangimento que poderia haver em relação a isso, vai deixando de existir, e essa vai se tornando a nova norma.

Além disso, mesmo não tendo um CEP próprio, muita gente que opta por continuar no ninho familiar contribui com as despesas da casa e executa as mais diversas tarefas. Resumindo em poucas palavras, morar com os pais não significa necessariamente comodismo.

A convivência em casa é outro ponto que influencia. Quem tem uma relação conturbada com a família costuma aguardar ansiosamente a maioridade pra encontrar outro lugar onde morar. Já pra aqueles que têm uma boa convivência, essa vontade pode demorar mais pra surgir.

Os dois lados

O lado não tão legal de morar com a família é bem conhecido. Em maior ou menor grau, é comum se incomodar com a falta de privacidade, a autonomia limitada — que abrange desde levar pessoas pra casa até a organização da rotina e o ritmo das tarefas diárias — e os conflitos geracionais, que costumam se manifestar nas diferenças de crenças e valores, como estilo de vida, hábitos e outras escolhas pessoais.

Por outro lado, sair mais tarde da casa dos pais também pode trazer benefícios. Além de ter mais tempo pra se planejar financeiramente, essa escolha permite uma convivência mais próxima com a família, algo que pode ser difícil na vida adulta. Também facilita um cuidado mútuo, tanto físico quanto mental, funcionando como um antídoto pra solidão que afeta não só os mais velhos, mas também os jovens.

Se organizando

Os olhos brilharam com a ideia de ter o próprio CEP, mas você não sabe nem por onde começar? Um bom primeiro passo é conversar com pessoas próximas que já passaram por essa experiência e analisar qual caminho tem mais a ver com a sua personalidade. Você curte passar a maior parte do tempo só ou prefere ter alguém pra interagir no dia a dia? Nesse segundo caso, pode ser interessante chamar um amigo pra embarcar nessa também.

Já em relação à grana, comece calculando suas despesas mensais — o que inclui aluguel, alimentação, convênio médico, lazer, pequenas emergências… Reserve, também, uma quantia pra compra dos móveis mais essenciais e tenha uma poupança pra casos de desemprego — seis meses de despesas é uma meta segura. Se o orçamento ainda não fechar, considere esperar um pouco mais antes de tomar essa atitude ou então encontre maneiras de ajustar os custos, seja buscando um lugar mais barato, seja dividindo as contas com alguém.

Pra saber mais:

· O relatório Todo o tempo do mundo: para além da idade, da Kantar Ibope Media.
· Os episódios Cuido dos meus pais, e agora?, do podcast Psicologia Sincera, e O que é ser adulto hoje?, do Desenrola, nosso podcast.
· A matéria Quer morar sozinho? Uma nova onda de influenciadores mostra como, da Fast Company Brasil.
· O vídeo Homens moram na casa dos pais por mais tempo que mulheres no Brasil, do Globo Repórter.

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texto: Dandara Fonseca | edição: Adriana Setti | arte: Eduardo Gayotto

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