


Você provavelmente já ouviu frases como “a vida começa no fim da sua zona de conforto” ou “nada cresce dentro da zona de conforto”. Gurus, empresários, escritores best-sellers e até a ex-primeira-dama dos Estados Unidos, Michelle Obama, já repetiram esses clichês. De fato, quem nunca se arrisca a fazer algo diferente acaba perdendo oportunidades e experiências incríveis. No entanto, a urgência constante de sair desse lugar de segurança não costuma fazer bem pra saúde mental e tem tudo a ver com o capitalismo e a cultura da performance. Precisamos, mesmo, perseguir desafios o tempo todo?
De onde veio?
O conceito de zona de conforto está enraizado em estudos dos psicólogos norte-americanos Robert M. Yerkes e John Dillingham Dodson, datados de 1908, cujos resultados concluíram que o desempenho melhora à medida que o stress aumenta. O problema é que essa teoria já foi contestada por muitos estudiosos. Além disso, Yerkes ficou conhecido como um grande defensor da eugenia e teve seu trabalho contaminado pelo racismo.
Hoje, estudos já comprovaram que o cortisol, conhecido como hormônio do stress, tem um papel importante no funcionamento do corpo, seja ajudando a obter a energia necessária em um momento de perigo, seja calibrando a pressão arterial e regulando o metabolismo. No entanto, quando presente em níveis altos e constantes, essa substância pode inibir o desempenho, levando a um estado de paralisia. Um artigo publicado no Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism também mostrou que indivíduos com níveis elevados de cortisol apresentavam um maior risco de desenvolver depressão.
Mentalidade capitalista
A teoria de que é preciso sair da zona de conforto pra melhorar o desempenho pessoal caiu como uma luva pro capitalismo e pra cultura da performance na qual vivemos hoje, sendo propagada por inúmeros empresários e gestores. Ela amplifica a ideia de que devemos buscar a todo momento fazer mais e melhor, escondendo, por trás de discursos empoderadores, seu real objetivo: gerar mais lucro.

Além de provocar uma exaustão que pode levar a quadros como burnout, essa cobrança costuma vir acompanhada da sensação de que nunca estamos sendo bons o suficiente, gerando sentimentos como frustração e medo. Colocar toda a responsabilidade do sucesso ou do fracasso no indivíduo também pode impedir a compreensão de que, na maioria das vezes, o problema é sistêmico. Por exemplo: não estar em um cargo de liderança não indica necessariamente que você está se esforçando pouco, mas sim que, em um mercado de trabalho saturado, as oportunidades são escassas e, na maioria das vezes, restritas a um grupo seleto de pessoas.
Conforto necessário
Crise ambiental, conflitos, inflação nas alturas, insegurança financeira... São tantas as incertezas do mundo à nossa volta que é importante ter um lugar de segurança e conforto ao qual voltar quando necessário. Não é à toa que, durante a pandemia — quando a ansiedade atingiu níveis igualmente pandêmicos —, muita gente recorreu a músicas e filmes nostálgicos, hobbies antigos e outros conteúdos e atividades que proporcionam aquele quentinho no coração.

Formada em Relações Internacionais pela Universidade Federal Fluminense e criadora de conteúdo na área de educação e produtividade, Daniele Thomaselli disse, em uma matéria de Alessandro Fernandes pra revista Vida Simples, que muitas pessoas confundem a zona de conforto com a zona de comodismo. Pra ela, a primeira é o conjunto de situações que nos faz sentir bem e confortável, enquanto a segunda nos leva a continuar em situações que não nos agradam por medo da mudança.
Há vida lá fora
Fazer transição de carreira, empreender no negócio dos sonhos, terminar um relacionamento, sair por aí viajando o mundo: frequentemente, atingir seus objetivos e ampliar horizontes requer, sim, encarar algum nível de desconforto. No entanto, por mais difícil que seja dar o primeiro passo, ir atrás daquilo que você deseja e acredita torna a vida mais solar e ainda pode trazer outros diversos benefícios.
A realização de conquistar algo que tempos atrás parecia impossível traz autoconfiança pra tirar outros sonhos da gaveta e fazer mudanças que muitas vezes são assustadoras, porém necessárias. Também permite que você entenda mais sobre o que deseja e quais são seus limites, como saber diferenciar quando rola se esforçar um pouco mais e quando a melhor decisão é recuar alguns passos. Além disso, empurra você a experimentar outras coisas, conhecer gente nova e expandir sua visão de mundo.
Escolhendo batalhas
Acontece que sair da zona de conforto pode trazer altas doses de incerteza, medo, ansiedade e stress. E nem sempre estamos com disposição pra isso. Por isso, é importante ter bem definido quem, onde ou o que traz tranquilidade pra você. Assim, quando uma situação ameaçar o seu bem-estar, é possível voltar ao lugar de segurança psicológica.
Psicólogo do desenvolvimento do início do século 20, Lev Vygotsky introduziu o conceito de “zona de desenvolvimento proximal”, que pode ser lido como um espaço conceitual entre a zona de conforto e a frequentemente chamada “zona de crescimento”. Em seu artigo para o The Guardian, a professora de comportamento humano Melody Wilding afirma que, pra ela, isso significa “assumir desafios deliberadamente, mas só depois de ter pensado muito sobre as suas qualificações e de definir cuidadosamente cada passo.”

Durante todo o processo, busque fazer coisas que levam você de volta pro seu lugar de conforto — nem que seja por um pequeno período de tempo. Também é importante ajustar a meta conforme você avança: sempre existe a possibilidade de reduzir o ritmo ou até mesmo de desistir. Aliás, não há problema nenhum nessa atitude, principalmente se você sentir que sua saúde mental depende disso. Por fim, esteja aberto a mudar de ideia e ver o mundo de outra forma.
Pra saber mais:
· O livro Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico (2021), dos autores Christian Dunker, Nelson da Silva Junior e Vladimir Safatle.
· A matéria Aprenda a lidar com o medo de tentar coisas novas, da revista Vida Simples.
· O episódio Zona de Conforto, do podcast Radiohel.
· Nossos posts sobre a cilada do perfeccionismo e o cortisol, o hormônio do stress.

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texto: Dandara Fonseca | edição: Adriana Setti | arte: Eduardo Gayotto
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