Você pegou um livro pra ler, mas, após algum tempo, percebeu que não era bem o que esperava. Resolveu dar mais uma chance e, lá pela metade, entendeu que não tinha salvação. O problema é que, após tantas horas de dedicação, desistir já não parece uma opção plausível. Essa mesma linha de raciocínio pode se aplicar a um curso, uma universidade, um relacionamento… Com certeza, você já se viu em alguma (ou algumas) dessas situações.

Na maioria das vezes, desistir não é uma atitude fácil, e costuma vir acompanhada de sentimentos desagradáveis, como culpa ou fracasso. Mas a real é que existem momentos em que essa não é apenas uma decisão corajosa, mas também a escolha mais sábia a se fazer.

Múltiplos fatores

No livro Sobre desistir, recém-lançado no Brasil pela Ubu Editora, o psicanalista britânico Adam Phillips mergulha nos aspectos admiráveis e perturbadores da desistência. Segundo o autor, desistimos ou abrimos mão de algo quando achamos que não conseguimos mais continuar como estamos. Portanto, de alguma forma, a desistência está sempre vinculada a um momento crítico — e crise nunca é fácil.

Como sociedade, somos criados pra acreditar que persistência e consistência são valores essenciais, o que faz com que valorizemos e até idealizemos a ideia de ir até o fim. Da mesma forma, relacionamos o ato de abandonar a características como fraqueza, preguiça e indecisão. Na narrativa de atletas, coaches e afins, o ensinamento que sobressai é “nunca desista” — caso contrário, você é um fracassado. Quem nunca voltou atrás na decisão de jogar a toalha por causa das expectativas externas e do medo do julgamento?

Desistir ou abrir mão de algo também expõe o que supomos querer — e isso pode ser incômodo, ainda que libertador. Também nos faz ficar cara a cara com sentimentos complexos, que costumam passar despercebidos quando estamos em uma dinâmica já conhecida.

Checklist infinito

O psicanalista britânico chama a atenção pra “tirania da conclusão”, uma valorização excessiva do ato de terminar que pode limitar a mente. Essa é uma forma de pensamento bastante comum e até automática no mundo de hoje, que nos induz a um senso de urgência a todo instante. É como se sempre tivéssemos que concluir as tarefas o mais rápido possível pra nos sentirmos produtivos, seja nas mais variadas áreas profissionais, seja em casa.

Não à toa, uma série de estudos publicados no Journal of Consumer Research revelou que as pessoas geralmente preferem concluir afazeres com prazos curtos, mesmo quando tarefas menos urgentes prometem uma recompensa maior. Isso porque o simples fato de “tirar da frente” traz uma onda de satisfação. A desistência, dentro dessa ótica, aparece como uma catástrofe a ser evitada.

Abrindo espaço

Todos esses fatores sociais e psicológicos frequentemente nos levam a permanecer em situações pelas quais perdemos o interesse, convencidos de que essa é a escolha certa. No entanto, muitas vezes, jogar a toalha pode ser a decisão mais benéfica. Como nos lembra Phillips, desistir é também uma tentativa de criar um futuro diferente, mesmo que as coisas não saiam como esperamos.

Um exemplo prático: você decidiu aprender a tocar violão pra ter um novo hobbie. No entanto, em certo momento, aquele objetivo parou de fazer sentido. Você passa a não se dedicar e, consequentemente, não avança. Ao invés de ficar se enganando dizendo que, uma hora, vai pegar firme, desistir abre espaço pra descobrir outra atividade que pode proporcionar muito mais prazer e realização.

Como saber que vale a pena?

Certeza, você nunca vai ter. O próprio psicanalista afirma que, se um dos riscos é desistir muito cedo, o outro é demorar muito tempo pra tomar essa atitude. Por isso, é importante analisar por qual motivo essa ideia passou pela sua cabeça. Está achando muito difícil aprender algo novo? Lembre-se que ninguém começa sabendo, e que o tempo de aprendizado de cada um é diferente. Rolou a primeira briga com o crush? Pense se é algo que pode ser resolvido, ou se a red flag já apareceu e é melhor pular fora. Também vale a pena refletir se a desistência em questão está alinhada com seus objetivos de longo prazo e seus valores fundamentais.

Um sinal claro de que pode ser a hora de desistir é se sua saúde física ou emocional está sendo prejudicada. Nesse caso, vale compartilhar com os amigos o que está acontecendo, e buscar a ajuda de um terapeuta.

Abraçando a mudança

É necessário um esforço ativo pra desfazer a associação entre desistência e falta de vontade ou covardia. Em uma sociedade que pensa dessa forma, jogar a toalha acaba sendo, na verdade, um ato de coragem. Da próxima vez que alguém disser a você que terminou relacionamento, trancou a faculdade, ou algo do tipo, encare apenas como o fechamento de um ciclo — que pode, sim, ter sido muito positivo.

Desistir também é, de certa forma, se abrir a mudar de ideia, o que alimenta o nosso encantamento pela vida, ativa a nossa curiosidade e nossa capacidade de aprender. Se encaramos essa atitude com mais leveza, provavelmente seremos mais felizes.

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texto: Dandara Fonseca | edição: Adriana Setti | arte: Eduardo Gayotto

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