

O dia mal começou e você já salta da cama com a ansiedade a mil, repassando mentalmente a lista de tudo o que precisa ser resolvido. No trabalho, fica pensando nas tarefas que ainda há por fazer em casa. E, quando a noite se aproxima, frita com as coisas que ficaram pendentes pro dia seguinte. Apesar do cansaço, ao se deitar, a cabeça continua a milhão. Se identificou?
Que o trabalho físico é exaustivo, ninguém discute. Mas a funça mental também pode provocar esgotamento e fadiga no corpo — além daquela sensação de “fritar” o cérebro. Como sair dessa?
O corpo sente
Quem nunca chegou ao fim do dia com a sensação de que um trator passou por cima do corpo? Até pouco tempo, a conexão entre cansaço mental e físico era pouco estudada pela ciência. Inicialmente, acreditava-se que o cérebro consumia uma grande quantidade de energia ao raciocinar, mas estudos comprovaram que não é bem por aí, já que a tarefa mental não implica um grande consumo de calorias.
Recentemente, uma equipe do Hospital Universitário Pitié-Salpêtrière, de Paris, analisou essa questão do ponto de vista neurometabólico e descobriu que a “fadiga cognitiva” resulta de um acúmulo de glutamato — neurotransmissor excitatório que desempenha um papel importante no aprendizado, na memória, no ciclo sono-vigília etc — em certa região do cérebro. Ou seja, o trabalho cognitivo gera mudanças químicas no cérebro, que são “traduzidas” pelo corpo como fadiga.
Pior pra elas
Quem trabalha com criatividade costuma sentir de forma mais intensa os efeitos de fritar a cabeça. Mas não é só o trabalho formal que pesa nessa balança. Planejar cada detalhe da vida — das refeições à logística do leva e traz das crianças —, organizar tudo da viagem das férias, fazer o quebra-cabeça social funcionar… Essas e outras tarefas, muitas vezes invisíveis, configuram a famosa “carga mental”, que também gera uma sobrecarga gigantesca e costuma recair com mais intensidade sobre o ombro (e a cabeça) das mulheres, comumente vistas como responsáveis pelo trabalho não remunerado do cuidado.
Inclusive, é comum ver por aí conteúdos afirmando que os homens são mais desligados e até menos “pilhados”. Mas já parou pra pensar que isso é culpa da sociedade em que vivemos? Que cobra responsabilidades muito maiores das mulheres?
Por todos os lados
Além de ter o poder de minar a nossa saúde mental, o “overthinking” nos impede de focar no momento presente. Sabe aquela dinâmica de ficar ruminando situações, ampliando preocupações e criando cenários negativos hipotéticos na mente? Apesar de acontecer com mais intensidade em pessoas diagnosticadas com ansiedade e outros transtornos mentais, pode rolar com qualquer um de vez em quando, de forma pontual ou em determinados períodos da vida. Nesses casos, como afirma a psicóloga clínica Jennifer L. Taitz ao canal CNBC, o primeiro e mais importante passo é o reconhecimento de padrões.

Hoje, é bem provável que, ao mínimo sinal de pensamentos considerados incômodos, você corra pra se distrair no celular. Mas, ao invés de esvaziar a cabeça, o excesso de notícias e informações presente no mundo digital — que vão da sequência de Stories do amigo no rolê às atualizações de um conflito armado do outro lado do mundo — faz com que a nossa mente continue ligada, sendo estimulada em uma velocidade ainda mais rápida.
Limpeza mental
Se você sente que o turbilhão de pensamentos intrusivos tem afetado grande parte das áreas da sua vida, vale buscar a ajuda de um especialista. No entanto, também existem algumas práticas simples que ajudam a “limpar” e acalmar a mente no dia a dia.
> Praticar mindfulness
Nessa prática, que tem seus benefícios comprovados pela ciência, o objetivo é entrar no estado mental de atenção plena ao que está acontecendo no momento. Exige treino e persistência, principalmente no mundo atual, no qual somos estimulados a dispersar o nosso foco. Uma boa dica pra quem quer começar é prestar atenção por um minuto na respiração, e ir aumentando o tempo.
> Colocando no papel
Pesquisas sugerem que escrever um pouco por dia pode contribuir pra reduzir a ansiedade e até aliviar a insônia. Uma das várias formas de praticar a escrita terapêutica está no livro O método Bullet Journal: Registre o passado, organize o presente, planeje o futuro, de Ryder Carroll, que faz o leitor reavaliar continuamente como está investindo seu tempo pra decidir se essas atividades valem a pena. “Quem não sabe o que quer nunca ficará satisfeito com nada que tem”, disse o autor.
> Ouvir música
Você com certeza já sentiu a mente silenciar ao dar o play no seu álbum preferido. É quase como um transe, durante o qual o corpo inteiro passa a ser controlado pelo ritmo. Além de aliviar o stress e calibrar o humor, a música também pode melhorar a concentração e motivar a aprendizagem. Descobriu uma nova faixa ou um ritmo que traz paz à mente? Já adiciona àquela playlist pra ouvir na hora do banho, antes de dormir ou em outros momentos de relaxamento. Aqui vai a nossa pra inspirar.
> Tudo em ordem
Se livrar do supérfluo, guardar aquilo que traz alegria e conservar a casa organizada e limpa ajuda a manter a cabeça no lugar. Segundo vários estudos, a bagunça física pode afetar outros aspectos da vida de uma pessoa, incluindo suas emoções e a produtividade. Deixar algumas coisas do seu dia pré-estabelecidas — como horários fixos pra certas atividades, o cardápio da semana e combinações de looks — permite que você pense menos na hora de tomar as pequenas decisões cotidianas.
> Deixe fluir
Deixar as coisas fluírem de vez em quando e tentar largar mão de querer controlar tudo pode dar um belo alívio pra mente e, consequentemente, pro corpo. Se você não consegue fazer isso no seu dia a dia, tente pelo menos deixar a vida levar nos momentos de folga. Vai viajar? Tente planejar só o necessário. É sexta-feira e ainda não sabe o que vai fazer no finde? Beleza, deixa rolar, relaxa.

Pra saber mais:
· O livro Zen – A arte de viver com simplicidade (2019), de Shunmyo Masuno.
· O episódio Como lidar com pensamentos indesejados?, do podcast Psicologia na Prática; e o podcast Jornada da Calma, de Helena Galante.
· A matéria How to Stop Ruminating, do The New York Times.
· Os perfis Desacelera SP e Hello, QuePaz.

No episódio mais recente do Desenrola, nosso podcast, convidamos Victor Collor, fotógrafo e coproprietário de dois restaurantes em São Paulo, e Sophia Costa, nômade digital e especialista em storytelling que nunca recusa um novo sabor, pra falar sobre viajar e comer, e refletir como as experiências gastronômicas podem revelar muito da história de cada lugar e das pessoas que vivem ali. Ouça aqui.
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texto: Dandara Fonseca | edição: Adriana Setti | arte: Eduardo Gayotto
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