

Você abre o livro, lê três frases, o celular vibra e, quando percebe, já está respondendo uma mensagem, ouvindo um áudio ou vendo vídeos de gatinhos no Instagram. Não é falta de vontade ou desinteresse na leitura: é que uma obra tem poucas chances ao disputar a atenção com tecnologias criadas justamente pra capturá-la.
É assim que o tempo de tela vai aumentando, e a quantidade de páginas lidas, diminuindo. O brasileiro passa, em média, 116 horas semanais conectado à internet, enquanto menos da metade da população é considerada leitora — a menor proporção registrada desde 2007, segundo a 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil.
Sempre vai existir um novo vídeo ou trend pra acompanhar, só mais uma notificação pra conferir ou uma série esperando pelo próximo episódio. São estímulos que entregam uma recompensa rápida, enquanto um livro pede mais tempo e atenção. Mas o esforço vale a pena: ler expande o vocabulário, estimula a criatividade e a empatia, além de reduzir os níveis de estresse.
A boa notícia é que cultivar (ou retomar) o hábito da leitura, mesmo no meio de tantas telas, não é missão impossível.
Desacelerando
Em um único dia, a gente “passa o olho” em milhares de conteúdos. São vídeos que duram poucos segundos, carrosséis abandonados pela metade, reels de receitas salvos numa pasta e jamais revisitados. Com a mesma rapidez com que são consumidos, também são esquecidos — você se lembra de algum post que curtiu na última semana? A velocidade e a efemeridade do algoritmo prejudicam não só a memória, mas também a capacidade de concentração pra ler textos mais longos, entender argumentos complexos e fazer análises críticas, que é justamente aquilo que um livro exige.
É preciso alguma disciplina pra entrar no ritmo da leitura: estabelecer um horário, seja depois do trabalho, seja antes de dormir, e, principalmente, manter o celular longe. Com o tempo, a prática vai virando parte da rotina e você começa a sentir falta desse momento quando não consegue encaixá-lo no dia.

Só não vale correr contra o relógio e achar que precisa terminar um título de duzentas páginas logo na primeira sentada. Pra cultivar o hábito, o ideal é começar aos poucos e aproveitar pequenas brechas de tempo livre: 10 minutos diários valem muito até pegar o jeito. Tenha em mente que, lendo 20 páginas todos os dias durante a semana, dá pra acabar uma obra curtinha em quinze dias ou um livro mais robusto em um mês.
Agora, se você escolheu um título, começou a ler e não pegou gosto, insista por mais algumas páginas — mas não mais do que isso. A vida é muito curta (e o mercado editorial, grande demais) pra ficar estagnado em uma história que não é pra você. Largue sem dó e lembre-se: nada impede de tentar retomar em outro momento.
Tamanho não é documento
Não tem nada melhor do que um bom livro pra acompanhar você enquanto espera no consultório do médico, no transporte público ou em um almoço solo. Se ele não estiver por perto, provavelmente será substituído por uma rolagem sem fim em alguma rede social. Talvez não dê pra carregar nos ombros pra cima e pra baixo o calhamaço de mil páginas de Um defeito de cor, mas, se aquele título fininho estiver sempre na bolsa ou na mochila, a chance de você recorrer a ele em um momento de tédio aumenta bastante.
Se só de olhar pra um exemplar gigante já dá vontade de ligar a TV, provavelmente o Grande sertão: veredas vai ter que ficar pra outra hora. Já que a satisfação de concluir uma história é o melhor incentivo pra engatar na próxima, por que não eleger uma obra de poucas páginas pra começar? Enredos envolventes, daqueles que prendem de cara, também são uma boa pedida pra reacender o hábito. Quando faz meses que você não consegue pegar em um livro, é mais fácil desistir de um texto que exige voltar algumas linhas pra entender ou ler o mesmo parágrafo três vezes.
Além do papel
As telas não precisam ser, necessariamente, nossas arqui-inimigas. Dá pra investir num Kindle ou mesmo ler as versões digitais de obras no tablet ou no celular. Há quem diga que elas não trazem o mesmo prazer do papel, mas são uma alternativa mais prática e, às vezes, mais barata.
Se ainda estiver difícil ler, que tal ouvir? A Audible, serviço de audiolivros por assinatura, tem um catálogo com mais de 165 mil títulos, de clássicos a best-sellers contemporâneos. A plataforma também tem investido em dramatizações: 1984, de George Orwell, ganhou versão com Lázaro Ramos e Alice Carvalho, e Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, tem Julia Dalavia e Rodrigo Simas no elenco. Já na Supersônica, as obras da vencedora do Nobel Annie Ernaux podem ser ouvidas na voz da atriz Isabel Teixeira e a psiquiatra e escritora Natalia Timerman é uma das autoras que narram seus próprios livros. Storytel, Skeelo, Tocalivros e Ubook são outras opções no mercado brasileiro de audiolivros.
Os filmes e séries também podem ser aliados na hora de descobrir sua próxima leitura. Descobriu que a história que você assistiu veio de uma obra literária? Procure o título que deu origem à adaptação e veja como a narrativa chegou às telas. Gostou daquela autora? Busque outros livros dela e se aventure por enredos que partem de um universo que você já conhece. Quando o ponto de partida é familiar, tudo flui com mais facilidade.
Boas influências
Nas redes sociais, o que não falta são perfis dedicados à literatura. Muitos leitores assíduos compartilham dicas, organizam rodas de conversa e criam grupos de leitura online pra discutir as histórias. Um exemplo é o advogado e criador de conteúdo Pedro Pacífico, que lançou a terceira edição de seu clube Bookster pelo Mundo, em parceria com a TAG Livros. Entre as 12 edições exclusivas que os assinantes recebem em casa pra serem lidas ao longo do ano, há títulos de países como Coreia do Sul, Austrália, Tanzânia e Honduras. Também fica disponível um canal com resenhas, curiosidades, sugestões de filmes e outros materiais.
O clichê tem pra todos os gostos funciona bem na hora de escolher seus curadores preferidos. Vinícius Barbosa, que é mestre em história e produz conteúdo no @latinaleitura, prioriza livros que se passam na América Latina ou tratam dessa identidade, tanto na ficção quanto na não ficção. Já as irmãs Pétala e Isa Souza usam o @afrofuturas pra compartilhar dicas de leitura decoloniais, histórias futuristas e antirracistas.
E tem muitos outros:
∙ Tatiany Leite (@tatianyleite) produz vídeos mais longos pro YouTube no canal Vá Ler um Livro.
∙ Karou Dias (@karouescreve) publica resenhas literárias e propõe questionamentos como “esse livro é bom ou só foi escrito por uma pessoa branca?”
∙ Ivan Neto (@literaneto) lê de tudo um pouco e indica gêneros variados, como fantasia e suspense, além de dar dicas pra manter o hábito da leitura.
∙ Ana Júlia Barros (@anajulivros) tem o bordão “por livre e espontânea vontade” na bio do perfil porque acredita que é nisso que nossas escolhas literárias devem ser baseadas.
Já garantiu o seu exemplar da oitava edição da revista do The Summer Hunter? São 140 páginas de conteúdo solar — com entrevistas, guias de viagem, ensaios, reportagens, passatempos e mais —, lombada quadrada e três opções de capa. Dá pra receber em casa ou escolher a versão digital. Compre a sua!
Pra saber mais:
∙ Esta matéria da Galileu com cinco dicas pra retomar o hábito da leitura.
∙ O livro What we talk about when we talk about books (sem tradução pro português), da professora de inglês Leah Price, que traz uma reflexão mais aprofundada sobre os benefícios da leitura e a importância de resistir ao digital.
∙ Este episódio do Desenrola, podcast do The Summer Hunter, com o influenciador literário Pedro Pacífico e a psiquiatra e neurocientista Natalia Mota, onde eles discutem a dificuldade de se concentrar num livro.
∙ Esta reportagem da DW mostra como o número de jovens que compraram livros cresceu em 2025 graças, em parte, às trends literárias que viralizam nas redes.
∙ Este manifesto pelas livrarias independentes, pela bibliodiversidade e pelas dicas valiosas de livreiros de carne e osso.

Cada casal encontra seu próprio jeito de compartilhar a rotina — e isso pode envolver dormir em quartos separados, morar em outro endereço ou manter amigos e hobbies independentes. No novo episódio do Desenrola, Lela Brandão, comunicadora, escritora e empresária, e a viajante Duda Cardoso, cocriadora do perfil GetOutside, conversam sobre como preservar a individualidade sem deixar de construir uma vida a dois. Ouça ou assista agora!
texto: Manuela Stelzer | edição: Fernanda Nascimento
☀️
Nós somos o The Summer Hunter, uma plataforma de conteúdo que acredita que o verão é mais do que uma estação do ano; é um estado de espírito. Nos siga no Instagram, onde publicamos conteúdo inédito diariamente, sempre às 7h30 da manhã. Coloque um pouco de música na sua rotina com as nossas playlists em parceria com a Tecla Music e garanta o seu exemplar da edição #08 da nossa revista impressa.


