A vida de Keith Richards não é exatamente um modelo a ser seguido. Sexo, drogas, rock’n’roll e algumas noites atrás das grades fazem parte de sua história. Em sua biografia, Vida, publicada em 2010, ele mesmo declarou não saber como sobreviveu a tantos excessos.

O músico britânico saiu ileso de uma coleção impressionante de eventos perigosos: levou um choque elétrico no palco e voltou a se apresentar no dia seguinte; escapou de dois incêndios; uma pilha de livros já desabou sobre ele, deixando três costelas quebradas e um pulmão perfurado… Ele já até caiu de um coqueiro em Fiji e precisou passar por uma cirurgia no cérebro.

Tudo isso rendeu a Keith a fama de imortal. E, realmente, fica difícil não se perguntar: o que explica a longevidade do guitarrista dos Rolling Stones? Spoiler: uma vida interessante, marcada por muita curiosidade e intensidade, parece ter papel importante nessa história. 

Do seu jeito

Keith Richards nunca teve muito interesse em seguir o caminho mais óbvio. Misturou o rock britânico com o blues americano, inventou soluções pouco convencionais pra conseguir os sons que queria — como ligar uma guitarra acústica a um pequeno gravador pra obter uma guitarra elétrica distorcida — e, mesmo com o sucesso dos Rolling Stones, criou uma banda onde era o frontman, os X-Pensive Winos, pra experimentar ainda mais.

Quem tem um amigo tem tudo

O guitarrista já disse que um de seus principais hobbies é cultivar amizades. Quando lançou o primeiro álbum solo, Talk Is Cheap, em 1988, aos 44 anos, contou que só decidiu seguir com o projeto quando encontrou pessoas que admirava pra trabalhar ao seu lado.

Mas Keith também entende que uma relação não se faz apenas de bons momentos e conversas fáceis, uma percepção cada vez mais rara em tempos em que qualquer atrito parece motivo pra se afastar. Não à toa, apesar dos desentendimentos, os Rolling Stones seguem juntos há mais de seis décadas, e sua parceria com Mick Jagger sobreviveu a dezenas (quem sabe centenas) de brigas. “Somos como dois irmãos muito voláteis: quando se chocam, realmente entram em conflito. Mas, no fim, sabem que precisam um do outro. Gostamos de trabalhar juntos”, disse em uma entrevista ao Men’s Journal em 2017.

Universo pessoal

Foi aos 15 anos, quando ganhou sua primeira guitarra, que Keith encontrou uma paixão pra vida inteira. Mas ela nunca foi a única. Antes de se dedicar completamente à música, ele estudou em uma escola de arte, e continua desenhando até hoje. O britânico também é um leitor voraz, com Jack Kerouac e Ernest Hemingway entre seus autores favoritos, e tem um interesse especial por história naval.

E o que tudo isso tem a ver com longevidade? Um estudo realizado em 16 países e publicado em 2023 na Nature Medicine constatou que pessoas que mantêm hobbies relatam mais satisfação, bem-estar mental e um maior senso de pertencimento na velhice. Isso porque, além de ocupar a mente, ter interesses que nos movem ajuda a preservar a conexão com os outros e a vontade de estar no mundo.

Se maravilhar é preciso

Com o tempo, até aquilo que a gente mais gosta pode perder a graça e entrar no piloto automático. No entanto, depois de décadas de carreira e mais de 25 álbuns, Keith segue se maravilhando com o seu trabalho. “É incrível quando você passa de mão em mão um pedacinho de papel com uma ideia e percebe que algo está nascendo. Assistir a esse processo nunca deixa de ser fascinante”, afirmou em entrevista recente à Billboard. 

Pai de cinco filhos (um deles faleceu ainda bebê), o músico também já falou sobre seu prazer em cuidar da família e das tarefas do dia a dia, como um simples café da manhã. Isso foge do estereótipo do ídolo de rock? Talvez. Mas combina com alguém que presta atenção e se encanta com as pequenas coisas do cotidiano.

Saber demais não existe

Um dos maiores guitarristas da história do rock, ele declarou no início deste ano ao portal Guitar World que ainda está aprendendo a tocar o instrumento — e segue treinando mesmo com artrite nas mãos, condição que às vezes prejudica a mobilidade dos seus dedos. “Essa é a beleza da coisa. Meu professor nunca para de me ensinar. Estou nisso há anos e ele ainda sabe mais do que eu.”

Em movimento

Fumante por cerca de 55 anos, Keith abandonou o cigarro em 2019, além de reduzir bastante o consumo de álcool. Já quando o assunto é atividade física, ele não parece disposto a encarar a academia e diz preferir “ensaiar oito horas em pé com a sua banda”. 

Isso quer dizer que todo mundo pode dispensar a musculação? Com certeza não. Dezenas de estudos já provaram a importância dos exercícios de força e equilíbrio pra um envelhecimento saudável. Mas, pra quem tem dificuldade de manter uma rotina de treinos, encontrar formas prazerosas de se movimentar pode fazer toda a diferença. 

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Satisfaction

Há hábitos que nos ajudam a chegar bem à velhice, mas, em uma época em que tanta gente parece obcecada por performance, disciplina, autocontrole e pela promessa de encontrar a fórmula perfeita pra longevidade, o guitarrista dos Rolling Stones tem outra coisa a ensinar: talvez uma vida longa também precise ser uma vida que dê vontade de viver.

Apaixonado por música, ele transformou a guitarra em uma extensão de si mesmo e se guiou pelo prazer, pela aventura e por (muuuita) liberdade. Essa não é uma receita pra imortalidade, mas Keith Richards certamente parece ter descoberto algum caminho.

Pra saber mais:

∙ Esta entrevista com Keith Richards, gravada em 1992, em que ele fala sobre o seu jeito de levar a vida.
∙ O podcast Tantos Tempos, que conversa com pessoas com mais de 50 anos sobre suas histórias e escolhas.
∙ Nossa newsletter sobre como ter uma vida longa e boa.
∙ Este papo recente dos membros dos Rolling Stones com Zane Lowe.

A VIDA FICA MELHOR PERTO DA NATUREZA

A rotina vai acontecendo em ambientes fechados e, sem que a gente perceba, passamos vários dias sem sentir o sol no rosto. Uma viagem pela Costa Rica quebra esse padrão. Entre praias, rios, vulcões, florestas e montanhas, a paisagem se transforma em um estímulo permanente pra sair, explorar, movimentar o corpo e passar mais tempo ao ar livre. E não é preciso testar os próprios limites: dá pra caminhar sem pressa em trilhas bem demarcadas, observar animais, praticar yoga, boiar no Caribe, surfar no Pacífico ou até experimentar um novo hobby. Cada viajante escolhe sua intensidade e descobre, do seu jeito, como a vida pode ficar muito melhor perto da natureza.

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texto: Dandara Fonseca | edição: Fernanda Nascimento


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