

Sabe quando você acabou de conhecer alguém e, nos primeiros minutos de conversa, desconfia que tem algo errado? Ou quando está prestes a aceitar uma proposta, mas alguma coisa te diz pra reconsiderar? E quando não consegue decidir entre duas opções até que uma, estranhamente, se sobressai? Ainda que a gente não entenda por completo de onde vêm essas percepções, elas são fruto da intuição, aquela voz que ajuda a orientar nossas decisões antes de conseguirmos encontrar uma justificativa racional.
Há quem diga que é um sexto sentido, mas a neurociência vem apontando outras explicações: estudos sugerem que regiões ligadas às emoções e à memória, como a amígdala, trabalham em conjunto com o córtex pré-frontal pra processar experiências passadas, padrões e sinais que nem sempre percebemos conscientemente e, assim, formar uma impressão diante de algo que estamos vivendo.
Todo mundo tem essa capacidade, embora nem sempre seja fácil distinguir uma percepção útil de um medo disfarçado de pressentimento. “Em essência, a intuição é uma forma de processamento implícito. Uma resposta que antecede a linguagem e que, muitas vezes, guia algumas pessoas de forma assertiva, mesmo antes da razão encontrar justificativa”, explicou a neuropsicóloga Leninha Wagner à Vida Simples. “Não é mágica, é o inconsciente trabalhando com precisão.”
A inteligência artificial pode até fazer muitas coisas melhor e mais rápido que nós, mas nem tudo o que importa numa escolha cabe em uma planilha. Segundo a pesquisa do psiquiatra britânico Iain McGilchrist, a intuição, essa habilidade tão humana, não será roubada pelas máquinas.

Dueto cerebral
Dividido em dois hemisférios, o cérebro tem um funcionamento que pode ser explicado com a música, de acordo com McGilchrist. Aprender uma peça exige atenção aos detalhes, treino e técnica — habilidades associadas ao hemisfério esquerdo. Esse lado está mais ligado à categorização de informações, análise lógica e identificação de padrões conhecidos. Só que quando chega a hora de subir ao palco e tocar, não basta dominar a técnica e juntar as partes. Aí entra o hemisfério direito, capaz de ler o contexto de maneira mais ampla, entender nuances e se abrir ao inesperado. É ele que permite que a gente dê vida a uma canção.
Isso não significa, porém, que existam pessoas comandadas pelo hemisfério esquerdo e outras pelo direito. A ideia de que o predomínio de um lado determina escolhas, como uma profissão voltada mais pra ciências exatas ou humanas, não tem respaldo científico. O que acontece é que eles trabalham em conjunto, trocando informações constantemente. Embora algumas tarefas envolvam e exijam determinadas áreas cerebrais, as habilidades e aptidões resultam de processos muito mais complexos.
Velocidade tem preço
Não dá pra negar que a inteligência artificial é especialmente eficiente em tarefas que envolvam processar grandes volumes de dados, reconhecer padrões e estabelecer relações entre eles. Seu imenso repertório de registros é capaz de agilizar processos, sugerir caminhos e assumir tarefas mais mecânicas. Se apostarmos uma corrida com as máquinas nesse terreno, dificilmente vamos vencer.
Mas, como a pressa é inimiga da perfeição, as IAs não se envergonham de inventar fontes e apresentar erros como fatos. Por isso, mesmo que nos ajudem a pular etapas, há uma que não pode ser dispensada: a verificação. E não adianta sempre pedir pra inteligência artificial fazer esse trabalho. Um estudo do MIT Media Lab descobriu que usuários que contaram com chatbots por quatro semanas pra identificar notícias falsas tiveram um desempenho pior ao fazer isso sozinhos, em comparação com o início da pesquisa.
Com ferramentas cada vez mais sofisticadas e conteúdos circulando em grande escala, acompanhar essas transformações e saber avaliar o que chega até a gente se tornou ainda mais importante. Segundo um levantamento da Agência Lupa, 81,2% dos casos de desinformação envolvendo tecnologias surgiram entre 2024 e 2026, principalmente sobre temas como eleições, guerras e golpes.

O benefício da dúvida
Interpretar uma situação, levar em conta o contexto e reconhecer nuances antes de tomar uma decisão são alguns dos nossos trunfos, mas isso não significa que a intuição esteja sempre certa. Pelo contrário: parte do que nos faz humanos é, justamente, errar, se arrepender e saber desconfiar das próprias certezas. A mesma experiência usada pra tomar decisões melhores também atrapalha o julgamento. Traumas e crenças, por exemplo, são capazes de distorcer nossas percepções: quem já sofreu abandono pode pressentir que será rejeitado mesmo em uma relação segura.
Essa voz que nos guia de forma inconsciente merece certa desconfiança, mas o pensamento puramente analítico também tem prejuízos: um estudo publicado por um grupo de psicólogos da Universidade da Virgínia, nos EUA, concluiu que refletir demais sobre as razões por trás de uma escolha reduz a satisfação da decisão. Além disso, segundo McGilchrist, grandes cientistas como Albert Einstein e Henri Poincaré tiveram insights em situações cotidianas, longe de um raciocínio linear e puramente mecanicista.
É claro que decisões sérias e com efeitos a longo prazo exigem evidências, pesquisa e embasamento, e não só intuição. Mas também aprendemos revendo certezas e experimentando as consequências das nossas escolhas, o que apura o olhar e o senso crítico pro futuro. O que a IA nunca vai roubar de nós é tudo aquilo que vivemos e as emoções que vêm nessa bagagem. Saber quando confiar apenas em informações concretas e quando ouvir a voz da experiência também é uma habilidade bastante humana.
• • •
A nossa nova loja está no ar! Além das edições da revista, por lá você encontra produtos originais do The Summer Hunter, como tote bag, bandanas e pôsteres. Explore!
• • •
Pra saber mais:
∙ Essa entrevista do Iain McGilchrist ao youtuber Chris Williamsom sobre a sabedoria da intuição humana.
∙ Esse TED Talk diz como essa habilidade pode ser uma das ferramentas pra superarmos grandes dilemas e questões mundiais.
∙ Essa reportagem explica a nossa vantagem frente às inteligências artificiais e como precisamos da intuição até pra fazer ciência.
∙ Essa matéria da BBC questiona quando ouvir nossos instintos e quando é melhor pensar um pouco mais.

UM JEITO NOVO DE CONHECER INHOTIM

Em 2026, a On celebra os 20 anos do Instituto Inhotim com uma parceria inédita que une esporte, bem-estar, performance e cultura. Ao longo dos próximos meses, a marca promoverá encontros e ativações que convidam o público a se exercitar, descobrir a arte e se conectar com a natureza. Entre jardins, lagos e galerias, o movimento também faz parte da experiência.
Localizado em Brumadinho, a cerca de 90 km do aeroporto de Belo Horizonte, o maior museu a céu aberto da América Latina tem 140 hectares pra explorar. São três rotas que revelam mais de 900 obras, em meio a um jardim botânico com mais de mil espécies de plantas. Um dos grandes destaques da programação comemorativa é Contraplano, da artista mineira Lais Myrrha, patrocinada pela On. Instalada em um dos pontos mais altos do parque, a escultura em grande escala conecta arquitetura, paisagem e memória, propondo novas leituras sobre território e ocupação. #publicidade

Entre crises globais, incertezas sobre o futuro e a sensação de que as coisas podem piorar, não anda fácil estar bem. Até os momentos de alegria podem vir acompanhados de culpa: afinal, como manter a esperança em meio ao caos? No novo episódio do Desenrola, Renata Rivetti, pesquisadora da ciência da felicidade, e Ricardo Moreno, jornalista e CEO do The Summer Hunter, falam sobre o que influencia o nosso bem-estar, a diferença entre esperança ativa e passiva e a construção de caminhos para uma felicidade não apenas individual, mas também coletiva. Ouça ou assista agora!
texto: Manuela Stelzer | edição: Fernanda Nascimento
☀️
Nós somos o The Summer Hunter, uma plataforma de conteúdo que acredita que o verão é mais do que uma estação do ano; é um estado de espírito. Nos siga no Instagram, onde publicamos conteúdo inédito diariamente, sempre às 7h30 da manhã. Coloque um pouco de música na sua rotina com as nossas playlists em parceria com a Tecla Music e garanta o seu exemplar da edição #08 da nossa revista impressa.

